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PRIMEIRAS IMPRESSÕES: NERGAL - Blessed
Por Daniel Aghehost
Publicado em 13/02/2026 09:20
Resenhas

NERGAL - Blessed

(Zombi Danz Records)

 

PRIMEIRAS IMPRESSÕES

Qualquer velho amante do metal extremo sabe que poucas cenas dentro do black metal possuem uma identidade tão imediatamente reconhecível quanto a helênica. Enquanto a escola norueguesa consolidou-se na frieza cortante e na dissonância, a tradição grega sempre privilegiou peso, cadência e uma sensação quase marcial de grandiosidade sombria. Uma das bandas helênicas que melhor traduz estas características, é a veterana NERGAL.

Sua trajetória iniciada no começo dos anos 90, ajudou a pavimentar os caminhos mais sombrios daquele som ritualístico, carregado de misticismo e peso atmosférico, mesmo que por muitas vezes seja eclipsada por contemporâneas como ROTTING CHRIST, VARATHRON e NECROMANTIA. 

Lançado no dia 18 de janeiro pela gravadora Zombi Danz Records, “Blessed”,  quinto full-length da carreira, surge após um hiato considerável e revela uma decisão clara: abandonar qualquer flerte com expansões modernas (muito presentes em seu último trabalho, o cinematográfico “Νύκτα γεμάτη θάματα - νύκτα σπαρμένη μάγια”) e reafirmar a arquitetura sonora que definiu o black metal helênico em sua fase formativa.

A entrada de Nyogtha (guitarra/baixo) reposiciona o eixo composicional do grupo em torno do riff e este disco é, acima de tudo, um tratado sobre riffs. Nada aqui soa acidental, nem excessivo. Cada progressão parece pensada para sustentar tensão prolongada, evitando resoluções fáceis. Aqui há uma tentativa consciente de reconectar-se à essência do início dos anos 90: riffs encharcados de sangue, vocais abrasivos e uma aura quase funerária que paira sobre cada composição.

A abertura com “Echoes from the Shadowpath” funciona como um portal. Sintetizadores discretos desenham um horizonte enevoado. Riffs em mid-tempo com forte acento modal estabelecem uma atmosfera densa sem recorrer ao caos. Como é maravilhoso ter, logo nos segundos iniciais, aquele teclado atmosférico que enriquece toda a arquitetura sonora, deixando a ambiência ainda mais superlativa. A bateria evita gatilhos exagerados e trabalha mais na sustentação do peso do que na velocidade. Há uma sensação de grandeza arcaica aqui, como se estivéssemos caminhando por ruínas iluminadas por tochas. Porphyrion entrega uma performance particularmente agressiva: seu timbre vocal orbita entre o registro tradicional do black metal e um alcance mais rasgado, mostrando a versatilidade necessária à banda.

A faixa-título é o primeiro grande ápice. Estruturalmente, uma das composições mais interessantes do disco. A banda alterna investidas rápidas com desacelerações abruptas, criando um efeito de compressão dinâmica extremamente eficaz. O riff principal poderia ter sido escrito em 1993 (e isso é um excelente elogio), enquanto os teclados aparecem apenas como camada espectral, jamais como condutores harmônicos. Uma escolha acertada que impede qualquer deriva sinfônica. Sem dúvidas, um dos momentos de maior destaque na carreira da banda.

Em “To the Death”, a NERGAL enfatiza todos os elementos que compõem os clássicos do metal helênico, sem jamais parodiá-los. Os riffs se acumulam lentamente na mente do ouvinte até se tornarem inevitáveis. De seu início avassalador aos momentos de puro deleite noventista, tudo aqui funciona perfeitamente. O trabalho realizado por Nyogtha parece tirado de qualquer disco clássico do estilo. Blast beats surgem sem exageros, mais como rajadas estratégicas do que como fundamento. É uma faixa que cresce com o tempo e recompensa audições atentas. Impossível não se emocionar quando a música revisita aquela aura única presente nos discos clássicos do black metal grego. 

O protagonismo dos teclados de Expulsion Angel em “Dictionnaire Infernal” transforma a faixa em um verdadeiro portal para a essência mais sombria de “Blessed”. É o momento em que a banda mergulha sem hesitação naquela estética noventista que moldou o black metal helênico e faz isso com uma segurança impressionante, sem soar nostálgica ou datada.

A atmosfera cresce em camadas, quase palpável, enquanto um riff de guitarra simplesmente devastador rasga o silêncio e conduz a música com autoridade. A bateria de Agisilaos, precisa e cheia de intenção, não apenas sustenta o andamento: ela empurra a faixa para frente, ampliando a sensação de grandiosidade. Tudo parece milimetricamente encaixado para envolver o ouvinte.

E então chega o desfecho: breaks sombrios, densos, carregados de tensão, que fecham a composição como um ritual negro sendo selado. O resultado é uma combinação irresistível de melodia enegrecida, reafirmando a capacidade da banda de criar melodias altamente refinadas.

“Dictionnaire Infernal” não é apenas um dos pontos altos de “Blessed”; é aquele tipo de faixa que prende o ouvinte dentro dela e lembra, com força quase física, por que essa sonoridade continua tão fascinante.

A veloz “Sacraments of Elder Sophia” irrompe reafirmando o compromisso da banda com a essência mais nobre do black metal helênico. Guitarras cortantes e melodias carregadas de dramaticidade se unem a uma bateria precisa e avassaladora, evidenciando uma coesão instrumental impressionante. Sobre essa muralha sonora, Porphyrion entrega vocais intensos e dominantes, evocando o espírito de um movimento em seu auge.

Quando a faixa desacelera, os teclados surgem de maneira triunfante, ampliando a sensação de grandeza e conduzindo a música a um patamar ainda mais épico. O resultado é uma composição que equilibra fúria e imponência com naturalidade. Sem dúvida, um dos pontos mais altos de “Blessed”.

O desfecho com “Sitra Achra” soa monumental, quase cerimonial. A banda aposta em uma construção lenta e deliberadamente melódica, permitindo que cada nota respire e se expanda. O riff principal, sólido e hipnótico, guia toda a jornada com firmeza, sustentando uma atmosfera densa e envolvente do início ao fim.

Mais extensa que as demais, “Sitra Achra” funciona como uma síntese elegante de tudo o que foi apresentado anteriormente. É o retrato de uma banda que avança com segurança, mas sem jamais romper o elo com suas próprias raízes: um olhar voltado para o futuro que caminha lado a lado com uma profunda reverência ao passado. Um encerramento digno e memorável.

O maior mérito de “Blessed” é sua honestidade. Em tempos em que o black metal frequentemente busca legitimação através da experimentação ou da sofisticação excessiva, a veterana NERGAL escolhe outro caminho: reafirmar o poder do simples quando executado com convicção.

Não espere inovação disruptiva, e talvez seja justamente essa a beleza. Este é um álbum feito por devotos para devotos, um monumento erguido em pedra antiga. Se há um risco, é o da familiaridade: algumas passagens soam como ecos de um passado já muito explorado. Mas quando a atmosfera é tão bem construída, essa previsibilidade se transforma mais em conforto ritual do que em limitação.

“Blessed” prova que emoções não se copiam: apenas se vivem. E a NERGAL vive esse som como poucos.

 

 

EM POUCAS PALAVRAS:

 

DESTAQUES:

Riffs hipnóticos e repletos de identidade, vocais intensos e absolutamente convincentes, teclados responsáveis por uma atmosfera sombria, imersiva e quase litúrgica que transforma cada faixa em um ritual. Estes são os principais destaques de “Blessed”. 

Não dá para não citar também as faixas “Blessed” e “Dictionnaire Infernal”, que possuem todos os adjetivos superlativos aqui presentes.

 

PONTOS DE ATENÇÃO:

Da mesma forma que muitos irão exaltar a habilidade da NERGAL em revitalizar com impressionante fidelidade a essência do black metal grego clássico, outros podem perceber nessa escolha uma fronteira delicada entre homenagem e dependência estética. Em vários momentos, os riffs evocam com tamanha precisão a sonoridade dos anos 90 que parecem ecos diretos de uma era consagrada, o que pode levantar questionamentos sobre o grau de originalidade da banda. Ainda assim, para os puristas, essa familiaridade é justamente parte do encanto de “Blessed”; já para ouvintes que buscam expansão ou ruptura dentro do gênero, a recorrente sensação de déjà-vu pode alimentar o eterno debate entre tradição e inovação, um equilíbrio tão difícil quanto essencial para qualquer grupo fortemente ancorado em um legado.

 

EXTRA-MÚSICA:

Não restam dúvidas de que “Blessed” figura entre os álbuns de produção mais refinada da trajetória da NERGAL: cada elemento soa perfeitamente equilibrado, com o peso exato para sustentar uma atmosfera densa e envolvente do início ao fim. Grande parte desse mérito recai sobre o produtor David Prudent, que soube extrair o máximo de cada músico e transformar desempenho em impacto sonoro. O cuidado estético também salta aos olhos na belíssima arte de capa assinada por H. Navi, nome já respeitado no underground, enquanto a participação especial de Sakis Tolis (ROTTING CHRIST), gera um momento único e entrega um daqueles acontecimentos que parecem destinados a permanecer na memória dos ouvintes.

 

VALE A PENA?

Sem hesitação: Sim! E com sobras. “Blessed” não apenas reafirma a força criativa da NERGAL, como também se posiciona com autoridade entre os pontos mais altos de sua discografia. Ao mesmo tempo em que reverencia o espírito clássico do black metal grego, o álbum entrega uma experiência intensa, coesa e profundamente atmosférica, sustentada por riffs magnéticos, vocais convincentes e uma produção irrepreensível. Ainda que o apego às raízes possa soar conservador para alguns, é justamente essa convicção estética que transforma o disco em uma audição quase ritualística. Para os devotos do gênero, e especialmente para aqueles que valorizam tradição executada com excelência, “Blessed” não é apenas recomendável; é um registro que merece ser ouvido, revisitado e celebrado.

  

9.8/10

 

(Daniel Aghehost)

 

 

TRACK LIST

1. Echoes from the Shadowpath

2. Blessed

3. To the Death

4. Dictionnaire Infernal

5. Sacraments of Elder Sophia

6. Sitra Achra

 

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