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PRMEIRAS IMPRESSÕES: MASTER'S HAMMER - Maldorör Disco (2025 - Darkness Shall Rise Productions)
Por Daniel Aghehost
Publicado em 16/01/2026 12:12
Resenhas

MASTER'S HAMMER - Maldorör Disco

(Darkness Shall Rise Productions)

 

PRIMEIRAS IMPRESSÕES

Ser fã dos primeiros discos da MASTER’S HAMMER é carregar uma memória muito específica: aquela alquimia estranha entre black metal, folclore tcheco, teatralidade e uma aura de mistério que discos como “Ritual” (1991) e “The Jilemnice Occultist” (1992) transformaram em algo único. Nunca me esquecerei da primeira vez em que ouvi estes trabalhos: foi arrebatador perceber que o Black Metal podia ser profano e misterioso ao mesmo tempo. Para quem cresceu emocionalmente com esses álbuns, cada retorno da banda sempre veio carregado de expectativa e também de um pequeno temor: o que eles vão aprontar desta vez?

Com “Maldorör Disco”, seu nono álbum lançado dia 26 de novembro pela gravadora Darkness Shall Rise Productions, a resposta é simples e brutal: eles definitivamente colocaram o metal para escanteio e optaram por um estilo tão, mas tão vanguardista que impacta.

Nada aqui remete à neblina ritualística dos anos 90. O que ouvimos agora é um salto completo para o eletrônico, para o bizarro, para o artificial. E, por mais que doa admitir, há algo que chama atenção nessa coragem. Mesmo quando ela parece desafiar tudo aquilo que nos fez amar a banda tantos anos atrás.

Desde os primeiros segundos da primeira faixa, “Anděl slizu”, fica claro que o clima mudou: a atmosfera é sintética, quase alienígena, e o vocal de Franta Štorm soa mais como um narrador de sonhos febris do que como o comandante de um exército oculto. É a trilha sonora de um ritual cibernético, curioso demais para rejeitar imediatamente, estranho demais para ignorar.

“Genesis P. Orridge” reforça a impressão de que o disco presta homenagens mais à estética industrial e à arte performática do que ao metal propriamente dito. Guitarras surgem como adereços, tímidas, enquanto os sintetizadores conduzem tudo com frieza quase clínica. Para mim, tudo aqui soa tão estranho pois não tem metal a ponto de agradar aos fãs do estilo, assim como também não é eletronicamente empolgante, a fim de conquistar um público diferente. 

O ponto de virada para o ouvinte mais tradicional é “Take It or Leave It”. Aqui, o refrão melódico e os vocais femininos criam uma elegância inesperada, algo entre darkwave e pós-punk, lembrando muito a alemã IN EXTREMO. Para alguém que ainda encara a MASTER’S HAMMER como uma banda de black metal, pode ser chocante, agora, para pessoas que gostam daquele metal eletrônico alemão, pode agradar.

A faixa-título, “Maldorör Disco”, abraça a imprudência: é eletrônica, pulsante e debochada, como se a banda estivesse decidida a tocar em raves e festas do tipo. Já “Bochnatky” e “Bicycle Day” mergulham de cabeça na excentricidade — melodias tortas, ritmos repetitivos, vocais que às vezes lembram recitações bêbadas. Podem até soar genuinamente ousadas, mas são extremamente desconfortáveis. Confesso que a audição até aqui foi um processo demasiadamente cansativo e angustiante.

Quando surge “Beast Within”, com uma pegada mais densa e sombria, finalmente aparece uma sombra do passado: não é o metal antigo, mas um peso eletrônico que remete, por exemplo, ao SAMAEL em sua fase digital. É um raro momento em que o álbum parece dialogar com a agressividade que os fãs saudosos tanto sentem falta.

“Doppelgänger” retorna à melancolia sombria, com linhas melódicas interessantes e um clima mais introspectivo. Já “El Teide” apresenta vocais limpos inesperados e cria um contraste curioso, quase um respiro humano no meio do laboratório eletrônico. O encerramento com “Slatina”, dissolve o disco em um devaneio: não conclui, apenas evapora.

O conjunto é estranho, desigual, às vezes frustrante. Quem veio pela nostalgia vai sofrer. Quem fica até o final talvez não entenda tudo. Mas certamente testemunha uma banda que se recusa a virar uma cópia de si mesma.

“Maldorör Disco” é o tipo de álbum que desafia o fã antigo. Não oferece o conforto das raízes, não ecoa a magia das primeiras obras e não tenta vestir o passado com roupas novas. Franta Štorm e companhia parecem preferir o risco completo à repetição fácil e entregam um disco que é tão eletrônico quanto excêntrico, tão criativo quanto irregular.

 

 

EM POUCAS PALAVRAS:

 

DESTAQUES:

Em um disco de difícil audição para mim “Take it or Leave it” (e sua melodia surpreendentemente bonita), a orgânica “Beast Within” ou a quase gótica “Doppelganger” conseguem se sobressair. 

 

PONTOS DE ATENÇÃO:

Nem todas as ideias parecem totalmente desenvolvidas. Com o tempo, as músicas perdem sua identidade e parece que estamos ouvindo a mesma batida, a mesma ousadia por horas. Este disco está situado em um local inatingível: não será consumido pelos inveterados fãs de longa data da banda, assim como não agradará também aos amantes de música eletrônica.  E olha que estamos falando de uma banda conhecida por ser extremamente ousada.

 

EXTRA-MÚSICA:

Que Franta Storm é conhecido por ser um artista plástico de certo renome, não é segredo para ninguém. Responsável por artes de discos de diversas bandas do underground, Franta assina também a arte de “Maldoror Disco”, criando uma imagem que condiz perfeitamente com a aura psicodélica e dançante do álbum.

Não deixe também de ver o vídeo da banda para a faixa “Beast Within”: neste vídeo, a banda conseguiu sintetizar exatamente a atmosfera aqui apresentada, trocando o clima sombrio por muitas luzes e neon.  

 

VALE A PENA?

Não. Mesmo que você aceite que a MASTER’S HAMMER é uma banda diferenciada, com histórico de ousadia sem limites, “Maldoror Disco” soa como um amontoado de ideias que não funcionam em conjunto. Este é um trabalho esquisito, ousado e absolutamente único, mesmo tropeçando em quase sua totalidade. 

  

5.0/10

 

(Daniel Aghehost)

 

 

TRACK LIST

1. Anděl slizu

2. Genesis P. Oridge

3. Take It or Leave It

4. Maldorör Disco

5. Bochnatky

6. Beast Within

7. Bicycle Day

8. Doppelgänger

9. El Teide

10. Slatina

 

 

 

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