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PRIMEIRAS IMPRESSÕES: ULVER - Neverland (2025 - House of Mythology)
Por Daniel Aghehost
Publicado em 16/01/2026 14:42
Resenhas

ULVER - Neverland

(House of Mythology)

 

PRIMEIRAS IMPRESSÕES

Poucas bandas atravessaram tantas metamorfoses quanto a ULVER. Do black metal norueguês seminal dos anos 90 ao experimentalismo eletrônico, do folk acústico ao synthpop e às trilhas imaginárias para cidades em ruínas, o grupo sempre fez da mudança sua identidade. “Neverland”, lançado no apagar das luzes de 2025 pela gravadora HOUSE OF MYTHOLOGY, surge em um momento delicado: é o primeiro trabalho após a morte de Tore Ylvisaker, membro fundamental da banda e também um dos principais responsáveis pela criação da fase mais experimental da banda.

Inspirado conceitualmente em “The Waste Land”, do escritor T.S. Eliot (No Brasil, este poema foi traduzido como “A Terra Desolada” e apresenta uma civilização em ruínas, incapaz de se comunicar, amar ou encontrar sentido), o disco se apresenta como um rito de passagem. Um álbum que fala de fim, transição e possível renascimento. Musicalmente, a banda abandona de vez a canção tradicional dos discos recentes e mergulha num território instrumental, guiado por momentos de ambient, synthwave, industrial e trilhas cinematográficas.

“Neverland” se move como um organismo instável, oscilando entre climas sombrios e faixas rítmicas de forte apelo eletrônico. Logo na abertura, “Fear in a Handful of Dust”, a ULVER estabelece o clima: eletrônica pulsante, voz declamada e uma sensação de desolação elegante, quase ritualística.

As faixas mais atmosféricas  (“Weeping Stone” e “Horses of the Plough” , por exemplo) apostam em camadas etéreas, ruídos digitais, drones industriais e melodias melancólicas. São peças belas, mas deliberadamente contemplativas, mais interessadas em textura do que em progressão. Em repetidas audições, essa escolha começa a cobrar seu preço, especialmente quando essas faixas aparecem muito próximas umas das outras. Ainda assim, “Weeping Stone” consegue impressionar graças às belíssimas incursões vocais de Sara Khorami. Mesmo assim, ainda superior ao eletrônico confuso apresentado pela MASTER’S HAMMER em seu último trabalho.

Já o lado mais rítmico do álbum traz seus maiores acertos. “They’re Coming! The Birds!” combina beats industriais nervosos com uma sensação quase paranoica, enquanto “Hark! Hark! The Dogs Do Bark!” se destaca pelo uso criativo de silêncio, percussões fragmentadas e uma construção que cresce em tensão. Aqui, a banda demonstra pleno domínio do design sonoro eletrônico.

O ponto mais alto do disco é, sem dúvida, “People of the Hills”. Staccatos de sintetizador, baixo funkado, bateria precisa e um clima de synthwave dramático fazem da faixa não apenas o destaque de “Neverland”, mas uma das composições mais cativantes dessa fase da banda. Em contraponto, “Elephant Trunk” chama atenção pelo uso de piano em uma estrutura que remete à música clássica, conduzindo o ouvinte a um clímax extremamente elegante.

O problema central do álbum está no ritmo interno. Muitas ideias surgem e desaparecem rápido demais. Algumas faixas rítmicas parecem curtas demais, enquanto os momentos eletronicamente etéreos se estendem além do necessário. Isso cria uma sensação de desequilíbrio, como se “Neverland” estivesse mais interessado em sugerir mundos do que em habitá-los plenamente.

Com todas estas ideias e ousadias, a banda consegue encerrar “Neverland” de forma precisa: “Fire in the End” funciona como uma síntese de tudo o que veio antes: groove, melancolia, drama e uma sensação de fechamento digna. É uma faixa que deixa o ouvinte satisfeito, mesmo após as oscilações do percurso.

Muito provavelmente nenhum fã da banda considerará “Neverland” como um dos melhores trabalhos dos noruegueses. No final, o disco soa fragmentado, errante e, por vezes, disperso, mas também rico em atmosfera, emocionalmente carregado e tecnicamente refinado. É um trabalho que leva a ULVER para outros caminhos, mesmo que isso já tenha sido sinalizado anteriormente

No fim, “Neverland” adiciona mais uma cor ao caleidoscópio sonoro da ULVER: talvez não a mais brilhante, mas certamente uma bem significativa.

 

 

EM POUCAS PALAVRAS:

 

DESTAQUES:

Não há dúvidas de que “People of the Hills” é o grande momento do disco. Outra que chamou minha atenção foi  “Hark! Hark! The Dogs Do Bark!” e seu clima exótico. se impõe pelo uso criativo de dinâmica, silêncio e tensão rítmica. Destaque também para “Fire in the End” que funciona como um fechamento emocionalmente forte, sintetizando melancolia e drama.

 

PONTOS DE ATENÇÃO:

O maior problema de “Neverland” está no fato de que não é um disco de metal. Por mais que estejamos acostumados com a sonoridade atual da ULVER, aqui a banda extrapola os limites da ambient music, trazendo nuances que podem cansar ouvidos mais extremos (principalmente em momentos que beiram a dance music). 

 

EXTRA-MÚSICA:

O disco é atravessado pelo luto e pelo diálogo explícito com “The Waste Land”, famoso poema de T.S. Eliot. Assim como o poema, “Neverland” é fragmentado, desolado e circular, mas carrega em si a possibilidade de transformação. A ausência de vocais tradicionais reforça esse caráter ritualístico e contemplativo, como se a ULVER estivesse mais interessada em criar um espaço de escuta e reflexão do que em narrar histórias de forma direta. Esta conexão entre música e literatura, aliados ao clima cinematográfico do disco é tão latente que reflete diretamente na arte de “Neverland”: Sua capa remete aos posters de filmes dos anos 40 e 50. Diferente de tudo que já vi e, por isso, hipnotizante (vale muito a pena ouvir o disco pelo vídeo lançado pela gravadora HOUSE OF MYTHOLOGY. Nele, a capa ganha movimento, enriquecendo ainda mais a experiência).

 

VALE A PENA?

Sim, com muitas ressalvas, contanto que o ouvinte se desfaça de toda reminiscência prévia ao encarar o que hoje se chama ULVER. Não é um álbum imediato nem coeso, mas oferece recompensas a quem se dispõe a mergulhar em seu clima melancólico, fragmentário e introspectivo. Para fãs do que a banda vem fazendo neste milênio, é um capítulo importante; para curiosos, pode soar interessante.

  

6.0/10

 

(Daniel Aghehost)

 

 

TRACK LIST

1. Fear in a Handful of Dust

2. Elephant Trunk

3. Weeping Stone

4. People of the Hills

5. They're Coming! The Birds!

6. Hark! Hark! The Dogs Do Bark

7. Horses of the Plough

8. Pandora's Box

9. Quivers in the Marrow

10. Welcome to the Jungle

11. Fire in the End

 

 

 

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