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PRIMEIRAS IMPRESSÕES: KREATOR - Krushers of the World (2026 - Shinigami Records)
Por Daniel Aghehost
Publicado em 16/01/2026 15:15
Resenhas

KREATOR - Krushers of the World

(Nuclear Blast // Shinigami Records - clique aqui para adquirir)

 

PRIMEIRAS IMPRESSÕES

O ano de 2026 fecha um arco simbólico para o  thrash metal germânico. Depois de DESTRUCTION e SODOM entregarem trabalhos que reafirmam seus respectivos territórios, um mais voltado à tradição bélica, outro ao caos primitivo, todas as atenções naturalmente recaíram sobre a KREATOR. Se a SODOM representa a trincheira e a DESTRUCTION o enlace maldito, a KREATOR sempre foi o mais fiel exemplo da violência seminal: a banda que pensa o thrash como linguagem viva, capaz de absorver o tempo sem ser engolida por ele. “Krushers of the World”, 16º álbum de estúdio de Mille Petrozza e companhia (lançado pela NUCLEAR BLAST e, aqui no Brasil, pela SHINIGAMI RECORDS), não surge como resposta aos pares, mas como afirmação de soberania.

Diferente de seus contemporâneos, a KREATOR nunca se satisfez com a repetição. As feridas abertas por “Outcast” (1997)  e “Endorama” (1999), por anos tratadas como desvios, hoje soam como etapas inevitáveis de um processo evolutivo que culminou em “Violent Revolution” (2001) e moldou a fase moderna da banda. “Krushers of the World” ocupa exatamente esse ponto de maturidade extrema: um disco que entende o peso histórico dos anos 80, mas se recusa a tratá-lo como fetiche. Aqui, a violência é calculada, a técnica é narrativa e a agressão tem propósito.

A abertura com “Seven Serpents” deixa claro, sem rodeios, que a KREATOR entra em cena de forma agressiva. O riff inicial cresce como uma ameaça anunciada à distância, quase solene, antes de desabar em velocidade controlada, evocando imediatamente a fúria de “Extreme Aggression” (claro, guardadas as devidas proporções), mas com musculatura moderna e consciência estética. Mille Petrozza soa confortável em seu próprio veneno: a voz segue áspera, mas mais articulada, menos caótica, como alguém que aprendeu a transformar raiva em discurso. O refrão, carregado de melodia, não suaviza o ataque: amplia sua escala, transformando violência em belos momentos épicos, algo que a KREATOR domina como poucos neste estágio da carreira.

Sem dar espaço para respirar, “Satanic Anarchy” entra como um soco seco no estômago. Aqui o thrash é frontal, quase físico, mas cuidadosamente organizado. A canção alterna versos agressivos com um refrão gigantesco, feito para ser berrado em coro, desses que colam na memória sem pedir licença. A produção de Jens Bogren, frequentemente criticada por sua limpeza cirúrgica, mostra sua força justamente aqui: cada virada de Ventor e cada linha de baixo de Frédéric Leclercq são sentidas como massa e impacto real. O thrash não perde sua sujeira característica, apenas troca a lama pelo concreto armado.

O clima muda quando o disco encontra seu eixo no tema-título, “Krushers of the World”. O andamento desacelera de forma estratégica, apostando em um mid-tempo denso, carregado de atmosfera e intenção. Há ecos claros da inquietação noventista, mas filtrados por décadas de experiência e autoconhecimento. Não é nostalgia nem concessão: é uma KREATOR que olha para trás sem se render ao passado, transformando memória em resistência ativa. O refrão soa como um chamado coletivo, quase um manifesto para quem acompanhou a banda em todas as fases. Funcionará muito bem ao vivo!

A ruptura estética mais evidente do álbum surge em “Tränenpalast (Suspiria)”, onde a KREATOR flerta abertamente com o horror e a teatralidade. A participação da vocalista Britta Görtz (CHAOS RISING) enriquece ainda mais a faixa, deixando-a com um elemento dramático essencial. O contraste entre o vocal ríspido de Mille e o gutural feroz de Britta cria uma tensão cinematográfica, reforçando o caráter narrativo da faixa. Inspirada no universo de Dario Argento, a música carrega um peso atmosférico que remete à fase “Endorama”, mas sem repetir seus vícios. É a KREATOR provando que ainda está disposta a correr riscos, e isso, em uma banda com mais de quarenta anos de estrada, é sinal de vitalidade real.

A agressividade retorna sem freios em “Barbarian”, uma das faixas mais diretas e violentas do disco. O riff é cortante, quase primitivo, enquanto a bateria mantém a sensação constante de perseguição (dá pra imaginar, ouvindo esse disco, que Ventor é quase um sexagenário?). O solo de Sami Yli-Sirniö surge como elemento narrativo, elevando a faixa antes de devolvê-la ao caos rítmico, criando a ponte perfeita para seu épico final. Um primor! Já em “Blood of Our Blood”, a banda se mostra no seu modo mais clássico e eficiente: thrash veloz, refrão de impacto imediato, um triunfante trabalho de guitarras e uma estrutura pensada para o palco. É uma dessas músicas que conectam passado e presente com naturalidade, servindo tanto ao fã antigo quanto ao ouvinte recém-chegado. Sem dúvidas, um dos grandes destaques deste disco.

O disco respira um pouco em “Combatants”, que aposta em um andamento mais contido e ameaçador. Aqui, o peso está menos na velocidade e mais na construção de tensão. As guitarras trabalham harmonias que flertam com o heavy metal tradicional, enquanto a base rítmica sustenta um clima quase marcial. Na sequência, “Psychotic Imperator” mergulha em um caos mais controlado, com arranjos que beiram o progressivo e uma sensação constante de instabilidade, mostrando uma banda extremamente técnica, cerebral, mas ainda profundamente agressiva.

Quando “Death Scream” surge, a banda volta a acelerar, flertando com vocalizações que se aproximam do death metal no refrão, sem perder a identidade thrash. É uma faixa feita para o impacto imediato, simples, direta, e com enorme potencial ao vivo. O encerramento com “Loyal to the Grave” funciona como um juramento silencioso. Longe de soar como autocelebração vazia, a música é uma declaração de fidelidade mútua entre banda e público. A banda encerra o disco reafirmando que lealdade aqui não é apego cego ao passado, mas compromisso consciente com a própria história. “Krushers of the World” se impõe justamente por sua coesão.

Ao contrário de “Hate Über Alles” (2022), que por vezes soava fragmentado, este é um álbum pensado como obra completa, com fluxo, intenção e identidade claras. A KREATOR alcança aqui algo raro: envelhecer sem se tornar confortável, ousar sem se descaracterizar. É um disco que dialoga com quem segue a banda desde seus momentos áureos, mas também com quem hoje consome uma música pesada, agressiva e moderna, independente do sub-gênero. Dentro dos recentes lançamentos da tríade alemã, não há dúvidas de que este é um dos discos mais audaciosos.

 

 

EM POUCAS PALAVRAS:

 

DESTAQUES:

Em um disco com muitos pontos positivos, encontrar destaques é uma árdua tarefa. A banda acertou muito ao abrir o disco com a intensa “Seven Serpents”. Outros momentos que merecem atenção é a poderosa “Tränenpalast (Suspiria)” e a veloz “Barbarian”.

 

PONTOS DE ATENÇÃO:

A ousadia da banda em trazer o thrash metal clássico para os dias atuais pode não agradar ao fã inveterado, que associa o estilo à sonoridade feita nos anos 80.  

 

EXTRA-MÚSICA:

A belíssima capa, idealizada pelo artista polonês Zbigniew Bielak (também responsável por artes de bandas como ABSU, AZARATH, GHOST e muito mais), sintetiza muito bem os temas tratados em “Krushers of the World”. É uma daquelas capas para se deliciar com tantos detalhes, enquanto o disco explode nas caixas de som.

Merecem menções também os vídeos que a banda fez para “Seven Serpents” , “Satanic Anarchy”, e “Tränenpalast (Suspiria)”, três dos grandes momentos deste álbum. Não deixe de assistir!

 

VALE A PENA?

Vale e muito! “Krushers of the World” é um daqueles discos feitos para quem ama a ferocidade tão característica do thrash metal. Este disco reposiciona a KREATOR como força criativa dominante no metal mundial contemporâneo.

Outro grande motivo para a aquisição é que a gravadora SHINIGAMI RECORDS lançou este disco no Brasil (o trabalho da gravadora foi tão incrível, que o disco já se encontra disponível para vendas no dia de seu lançamento mundial), garantindo esta obra a preços acessíveis.

  

8.8/10

 

(Daniel Aghehost)

 

 

TRACK LIST

1. Seven Serpents

2. Satanic Anarchy

3. Krushers of the World

4. Tränenpalast

5. Barbarian

6. Blood of Our Blood

7. Combatants

8. Psychotic Imperator

9. Death Scream

10. Loyal to the Grave

 

 

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