PRIMEIRAS IMPRESSÕES: ROTTING CHRIST - Pro Xristou (2024)
05/07/2024 10:54 em Resenhas

ROTTING CHRIST  - Pro Xristou

(Season of Mist - Urubuz Records)

 

 

PRIMEIRAS IMPRESSÕES

Ao longo de mais de três décadas, a grega ROTTING CHRIST solidificou seu lugar como uma das bandas mais icônicas do metal extremo. Com seu décimo quinto álbum de estúdio, "Pro Xristou" (Antes de Cristo), a banda liderada pelos irmãos Sakis e Themis Tolis retorna com uma obra que promete evocar discussões sobre sua evolução e criatividade contínua.

Desde o lançamento de "Theogonia" em 2007, a banda passou por uma transformação significativa, mudando de um som brutal e cru para uma abordagem mais melódica e atmosférica (com muita influência do gótico até), sem perder suas raízes no black metal. No entanto, essa transição trouxe consigo um desafio: manter o frescor e a inovação sem se perder em uma fórmula repetitiva. "Pro Xristou" continua sua tradição de explorar novos territórios musicais, embora também destaque alguns problemas persistentes que fãs e críticos têm notado nos últimos anos.

O álbum começa com a faixa-título, "Pro Xristou", uma introdução breve, mas potente, que prepara o palco para os temas que virão. Com sua marcha de guerra trovejante e a narração evocativa de Sakis, a faixa imerge os ouvintes em um mundo pré-cristão, invocando um senso de misticismo antigo. Esta introdução transita perfeitamente para "The Apostate," que constrói sobre a atmosfera estabelecida com um riff de acorde de potência pulsante e vocais profundos e sonoros. A canção presta homenagem a Juliano, o Apóstata, o último imperador pagão de Roma, combinando de forma eficaz narrativa histórica com heavy metal.

À medida que o álbum avança, faixas como "Like Father, Like Son" e "The Sixth Day" mostram a habilidade da ROTTING CHRIST em criar ambiências hipnóticas e de ritmo médio com um toque teatral. E aqui a sensação de repetição começa a se insinuar. "Like Father, Like Son" apresenta um riff memorável que evoca, principalmente, os discos lançados mais recentemente pela banda, mantendo um senso de refinamento. As letras focam na construção de um legado e da resistência à mudança, possivelmente refletindo a própria jornada da banda através do cenário evolutivo do metal.

"The Sixth Day" surge em seguida, com suas poderosas linhas de baixo e vocais limpos e imponentes. O refrão, "e no sexto dia, eu criei o homem," destaca a contínua exploração da banda de temas religiosos e suas ironias. Esta faixa, emprega seções de narrações teatrais e solos emotivos, repetindo fórmulas já desgastadas e tornando-se difícil a diferenciar de outras faixas que a banda já produziu.

Seguindo para sua seção intermediária, a audição começa a se tornar mais cansativa devido a constante sensação de "déjà vu" que começa a emergir. Faixas como "La Lettera Del Diavolo" e "Yggdrasil" oferecem momentos de brilho, mas também destacam a tendência do álbum de cair em um padrão previsível. "La Lettera Del Diavolo" apresenta os vocais assombrosos de Androniki Skoula (soprano grega - também vocalista da banda CHAOSTAR), adicionando uma camada de desespero à narrativa da canção. O uso de corais e percussão ritualística na faixa aumenta sua qualidade atmosférica, criando uma experiência auditiva arrepiante.

"Yggdrasil," com seus riffs galopantes e energia primal, se evidencia como um dos destaques do álbum. O uso de cantos gregorianos e melodias épicas evoca imagens de batalhas antigas e opulentos reinos pagãos. Esta faixa mostra a habilidade da ROTTING CHRIST em criar experiências auditivas cinematográficas, embora também sublinhe a dependência do álbum de motivos familiares.

"Pro Xristou" segue avançando em direção à sua conclusão e os elementos temáticos e musicais se tornam mais pronunciados. "The Farewell" e "Pix Lax Dax" são particularmente notáveis por sua profundidade atmosférica e intensidade dramática. "The Farewell" começa com sinos fúnebres e cavalos galopantes, criando o sentimento perfeito de desgraça iminente. Os vocais sussurrados de Sakis adicionam uma qualidade soturna, reminiscente da era "A Dead Poem" (disco lançado em 1997).

"Pix Lax Dax" captura a essência dos ritos religiosos gregos antigos com seu começo lírico e acústico e percussão sutil. O refrão, cantado em grego, evoca a atmosfera dos Mistérios de Elêusis, mesclando beleza melódica com intensidade ritualística. Apesar de ser um grande momento, ainda assim, não consegue escapar da sensação de reincidência sonora.

As faixas finais, "Pretty World, Pretty Dies" e "Saoirse," retratam bem a narrativa épica do álbum. "Pretty World, Pretty Dies" começa com sons de batalha e uma citação de T.S. Eliot, narrada por Andrew Liles (renomato artista britânico), adicionando uma camada de profundidade literária. Os riffs cativantes e a melodia poderosa da faixa são momentos perfeitos para delírio do fã das antigas.

"Saoirse," a faixa de encerramento do álbum, conclui a jornada com um refrão massivo e um senso de triunfo. O refrão repetido "Hail freedom, hail freedom, our freedom, our wisdom" glorifica o tema geral do álbum de resistência e libertação. Esta faixa final (assim como todo o disco) deixará parte dos ouvintes com a sensação de terem contemplado uma paisagem sonora repleta de referências históricas, melodias épicas e tons blasfemos. Porém, outra parcela considerável não conseguirá terminar o disco sem escapar da sensação de uma longa e cansativa viagem por paragens monótonas. 

 

VEREDITO

Apesar de alguns momentos de brilho, o álbum como um todo não consegue escapar da sombra de seus antecessores, como "The Heretics" (2019) e "Rituals" (2016). A banda parece presa em uma fórmula que, embora tecnicamente competente, carece de paixão e inovação. Essa percepção é reforçada pela produção impecável de Jens Bogren, que dá ao álbum um som claro e equilibrado, mas que não pode compensar a falta de energia criativa.

Em termos de composição, "Pro Xristou" segue uma abordagem simplista, com estruturas musicais previsíveis e pouca exploração de novas ideias. Isso é particularmente decepcionante para uma banda com a história e o impacto da ROTTING CHRIST, que outrora era conhecida por sua capacidade de surpreender e desafiar seus ouvintes.

A sensação de que a ROTTING CHRIST está se apoiando demais em fórmulas estabelecidas é inegável, e a falta de inovação pode levar a um desgaste de sua base de fãs a longo prazo. Para uma banda que já foi pioneira, a complacência criativa é um risco que não podem se dar ao luxo de correr.

 

 (Daniel Aghehost)

 

7.0/10

 

 

TRACK LIST

1. Pro Xristou (Προ Χριστού)

2. The Apostate

3. Like Father, Like Son

4. The Sixth Day

5. La lettera del Diavolo

6. The Farewell

7. Pix Lax Dax

8. Pretty World, Pretty Dies

9. Yggdrasil

10. Saoirse

 

 

 

 

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