VOMEPOTRO – Fall Into Decay
Brasil | Brutal Death Metal
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2026
FORMAÇÃO
Cristiano Martinez - Vocals, Guitars
David Ferreira - Guitars (lead), Vocals
Rodolfo Menezes - Bass, Vocals (backing)
Kalle Lindfors - Drums
PRIMEIRAS IMPRESSÕES
O retorno da VOMEPOTRO depois de mais de uma década e meia não poderia depender apenas da nostalgia. “Fall Into Decay”, terceiro álbum da banda paulista, precisava preservar a brutalidade construída desde os anos 1990 e, ao mesmo tempo, justificar sua existência dentro de uma cena que se tornou mais rápida, técnica e competitiva. Em apenas 30 minutos, o grupo cumpre essa tarefa com um trabalho violento, coeso e musicalmente mais elaborado do que o brutal death metal poderia sugerir.
O contexto torna o lançamento especialmente significativo. Após “Liturgy of Dissection”, de 2009, a trajetória do VOMEPOTRO foi atravessada por períodos de inatividade e pela morte do baterista e fundador André Martuchi, em 2021. A retomada aconteceu em 2025 com Cristiano Martinez e David Ferreira acompanhados por Rodolfo Menezes no baixo e pelo finlandês Kalle Lindfors na bateria. “Fall Into Decay” não representa, portanto, uma reunião clássica, mas a reconstrução de uma identidade.
A faixa-título apresenta rapidamente os fundamentos dessa nova fase. Os bumbos velozes e os blast beats sustentam guitarras que alternam ataques técnicos, passagens cadenciadas e solos breves. Os vocais divididos entre registros guturais e médios ampliam a agressividade, transformando esta faixa em um verdadeiro hino do apocalipse. Mesmo nos trechos mais velozes, é possível acompanhar o movimento dos instrumentos.
Essa clareza está diretamente relacionada à produção. Guitarras, baixo e vocais foram registrados em São Paulo, a bateria foi gravada na Finlândia, enquanto mixagem e masterização aconteceram na Indonésia. Apesar da distância entre os envolvidos, o álbum mantém uma sonoridade compacta. As guitarras possuem definição, a bateria conserva impacto e o baixo aparece com uma presença pouco comum em trabalhos do gênero.
“Beaten to Death” comprime sua violência em menos de dois minutos. Gravity blasts, baixo acelerado e riffs vertiginosos fazem da música uma das investidas mais diretas do disco. Sua brevidade funciona a favor da composição: a banda chega, desfere os golpes e encerra tudo antes que a velocidade se torne privisível.
Em “Voracious Atrocity”, o canibalismo ritualístico das letras encontra uma estrutura mais desenvolvida. A bateria de Kalle Lindfors, impressiona pela precisão, mas são as mudanças de andamento que impedem a música de se resumir a uma demonstração técnica. Os solos de David Ferreira também possuem importância nesse equilíbrio. Em vez de interromperem a brutalidade para exibir virtuosismo, surgem como prolongamentos da instabilidade construída pelos riffs.
“Abyss of Lunacy” reforça essa capacidade com uma introdução marcada por ataques interrompidos e mudanças rítmicas. A música acelera até alcançar uma das passagens mais intensas do álbum, recua brevemente e volta aos blast beats. É nesse movimento que surge uma possibilidade interessante para o futuro da VOMEPOTRO. Os trechos cadenciados acrescentam outra dimensão ao peso de “Fall Into Decay” e criam contrastes valiosos diante das explosões de velocidade. Ao explorar essas passagens por mais tempo, a banda poderá enriquecer sua sonoridade e tornar ainda mais impactante o retorno aos blast beats.
Em “Your Pain, I Despise”, uma cirurgia plástica transforma-se em uma sequência de mutilações digna do cinema de horror corporal. A música acompanha essa degradação com riffs pesados, acelerações repentinas e três intervenções de guitarra de David Ferreira, que reforçam a tensão sem interromper o ataque. O resultado é uma faixa dinâmica, na qual técnica, violência e narrativa avançam como partes do mesmo procedimento cirúrgico.
O melhor equilíbrio aparece em “Insect Spawning”. De início avassalador, o baixo estabelece um groove imediatamente perceptível e as guitarras avançam por uma condução quase galopada. As viradas de bateria levam a música novamente aos blast beats, mas as mudanças acontecem com maior naturalidade. A VOMEPOTRO permanece brutal sem precisar manter todos os instrumentos permanentemente no limite. É justamente essa dosagem que transforma a faixa em um dos grandes momentos do álbum.
“Putre-Nuptial Orgies”, com a participação de Jani Huttunen (INFERIA), retoma o humor repulsivo e o imaginário necrofílico característico da banda. A alternância entre ataques velozes e passagens cadenciadas amplia o peso da composição, enquanto guitarras, baixo e bateria travam um confronto intenso. Quando os vocais assumem uma função quase percussiva, a música se transforma em um verdadeiro assalto sonoro. Mesmo cercado por imagens de decomposição, perversão e violência, o arranjo preserva movimentos bem definidos e facilmente reconhecíveis.
Esse universo lírico acompanha A VOMEPOTRO desde seus primeiros registros. “Fall Into Decay” não procura oferecer reflexões existenciais escondidas sob a carnificina. As letras funcionam como pequenos filmes de horror: massacres familiares, canibalismo, negligência médica, cirurgias transformadas em tortura e corpos devorados por insetos. A arte de Jon Zig amplia essa coerência visual e coloca o álbum imediatamente dentro da tradição estética do brutal death metal.
A instrumental “Festering Degradation” encerra o álbum exaltando a capacidade técnica da atual formação. Sem recorrer aos vocais, a VOMEPOTRO concentra toda a brutalidade no diálogo entre guitarras, baixo e bateria, evidenciando a precisão das mudanças rítmicas e a força dos riffs. A faixa demonstra que a violência do grupo não depende exclusivamente dos guturais: está incorporada à própria construção instrumental de sua música.
“Fall Into Decay” demonstra que a VOMEPOTRO voltou com uma formação tecnicamente preparada e uma compreensão bastante clara daquilo que deseja preservar. Referências a SUFFOCATION, DEICIDE, DYING FETUS e ao brutal death metal produzido na virada do século são perceptíveis, mas não sufocam a personalidade do grupo.
Depois de tantos anos, perdas e interrupções, a VOMEPOTRO não retorna para reproduzir uma fotografia do passado. Retorna para provar que sua decomposição ainda está em andamento.
FAIXAS QUE MERECEM ATENÇÃO
“Fall Into Decay”, “Abyss of Lunacy”, “Your Pain, I Despise”, e “Putre-Nuptial Orgies”
9.5/10
(Daniel Aghehost)