TAAKE – En Skog av Nidstang
NORUEGA | Black Metal
Dark Essence Records |
2026
FORMAÇÃO
Hoest - All Instruments
PRIMEIRAS IMPRESSÕES
Ao longo de mais de três décadas, Hoest transformou a TAAKE em uma extensão de sua própria personalidade artística. A tradição do black metal norueguês continua sendo o centro dessa obra, mas nunca serviu como limite. Melodias de inclinação folclórica, passagens de black’n’roll, estruturas pouco lineares e riffs que desafiam resoluções previsíveis fizeram com que o projeto preservasse sua identidade sem depender exclusivamente dos códigos estabelecidos nos anos 1990. “En Skog av Nidstang”, nono álbum de estúdio, reforça essa autonomia ao apresentar quatro composições extensas que conciliam a crueza habitual da TAAKE com um desenvolvimento mais direto do que aquele encontrado em alguns de seus trabalhos recentes.
O título pode ser compreendido como “uma floresta de estacas de maldição”, em referência ao níðstang, artefato associado às antigas práticas nórdicas para amaldiçoar, desonrar ou afugentar um inimigo. Tradicionalmente associado à cabeça de um cavalo colocada sobre uma haste. A imagem combina com um disco construído a partir do isolamento, da hostilidade e da sensação de atravessar uma paisagem onde cada elemento parece carregar uma ameaça. As gravações foram realizadas ao sul de Bergen, nas florestas cobertas de musgo próximas à ilha de Borgøy, região relacionada às paisagens retratadas pelo pintor norueguês Lars Hertervig. Marcada por pobreza, transtornos mentais e progressivo afastamento social, a trajetória do artista encontra correspondência menos em um conceito narrativo declarado do que no caráter perturbado e solitário dessas composições.
Assim como em “Et Hav av Avstand”, lançado em 2023, o álbum está organizado em quatro faixas longas, mas a continuidade estrutural entre elas não dilui suas identidades. Cada composição desenvolve seus próprios motivos e apresenta começo, transformação e desfecho reconhecíveis. Hoest ainda trabalha com riffs oblíquos e transições inesperadas, mas reduz parte da fragmentação que caracterizou discos como “Noregs Vaapen” (2011) , “Stridens Hus” (2014) e o próprio trabalho anterior. Isso não significa um retorno ao tradicionalismo dos primeiros álbuns. Trata-se de uma escrita mais concentrada, na qual a excentricidade deixa de dominar o arranjo e passa a surgir como desvio dentro de estruturas mais compreensíveis.
“Einstoeingen og Eg” inicia o disco expondo essa diferença. Seu título, “O solitário e eu”, estabelece uma relação imediata com o ambiente de reclusão que envolve o álbum. A faixa começa sem recorrer a uma introdução separada e gradualmente organiza guitarras melódicas, trechos de palhetada limpa e uma pulsação que alterna avanço e contenção. Os riffs mantêm aquela qualidade tipicamente associada ao TAAKE: linhas que parecem mudar de direção antes de alcançar a resolução esperada, mas retornam modificadas o suficiente para que a música não permaneça parada.
A entrada dos vocais rompe a contemplação sem eliminar a melodia. Hoest continua utilizando gritos abrasivos, de pronúncia áspera, que soam menos como uma narrativa sobreposta aos instrumentos do que como parte da própria massa sonora. Em alguns momentos, voz e instrumentação parecem ocupar espaços separados: a descarga vocal concentra a agressividade, enquanto os intervalos instrumentais permitem que as guitarras assumam o desenvolvimento da composição. Essa alternância proporciona à faixa um movimento dramático que não depende apenas da velocidade.
“Et Dyr tok min Hud” abandona parte dessa construção gradual e parte imediatamente para o confronto. A bateria sustenta o impulso enquanto as guitarras empilham tremolos, linhas sinuosas e mudanças que preservam o movimento sem transformar a faixa em uma sucessão desconexa de ideias. É uma das composições mais agressivas do disco, mas sua violência não se resume aos blast beats. A TAAKE compreende que a ameaça também pode surgir da interrupção, do espaço entre os ataques e da maneira como um motivo melódico permanece ativo por baixo da percussão.
Os momentos corais ampliam a escala da composição sem aproximá-la do black metal sinfônico. São intervenções pontuais, utilizadas para fortalecer determinadas passagens e não para conferir grandiosidade artificial à gravação. A presença de solos também merece atenção: Hoest não os trata como exibições técnicas, mas como extensões deformadas das melodias principais. As notas se contorcem sobre a base rítmica e preservam a sensação de instabilidade que percorre o álbum.
“Engler” é a faixa em que a antiga irregularidade da TAAKE aparece de maneira mais evidente. A abertura utiliza uma pulsação deliberadamente torta, acompanhada por um elemento de caráter folclórico, antes de se transformar em um dos momentos mais imediatamente reconhecíveis como black metal norueguês. Em vez de seguir um crescimento linear, a música alterna trechos frios e velozes, passagens cadenciadas e acentos rítmicos que interrompem seu fluxo.
É também onde o álbum encontra seu melhor equilíbrio entre estranheza e clareza. As melodias são facilmente identificáveis, mas o caminho utilizado para ligá-las continua imprevisível. A bateria insere viradas abruptas, enquanto as guitarras percorrem linhas que, isoladamente, poderiam parecer simples, mas ganham profundidade pela sobreposição e pela repetição. O resultado é uma composição extensa sem caráter excessivamente episódico: mesmo quando muda de direção, “Engler” conserva um centro emocional reconhecível.
Essa coesão representa um avanço em relação a alguns momentos da fase recente do projeto. Desde “Noregs Vaapen”, Hoest passou a explorar uma escrita deliberadamente quebrada, em que acordes e riffs pareciam unidos por uma lógica particular. Esse estilo produziu alguns dos momentos mais originais da discografia, mas também fez com que determinadas músicas soassem como coleções de boas ideias incapazes de construir uma trajetória comum. Em “En Skog av Nidstang”, essas irregularidades permanecem, porém aparecem subordinadas às composições. Hoest não abandona sua linguagem; demonstra maior controle sobre ela.
“Av Guds ville Naade” encerra o disco reunindo suas diferentes tendências. A entrada com tambores e vocais limpos de registro grave sugere uma solenidade incomum, logo desfeita pela retomada dos gritos e das guitarras. O arranjo transita por batidas deslocadas, motivos repetitivos de teclado, acelerações e passagens em que o bumbo duplo confere uma dimensão quase marcial à música. A faixa não parece interessada em encontrar rapidamente um clímax. Ela acumula tensão, contém o avanço e depois libera a agressividade em movimentos sucessivos.
Na parte final, um solo agudo atravessa o arranjo sem romper sua melancolia. É um trecho peculiar, mas não gratuito: a guitarra funciona como ponto de convergência para a atmosfera construída durante o disco. A repetição prolongada dos motivos finais produz o efeito hipnótico pretendido, embora também revele a principal fragilidade do álbum. Hoest confia tanto na força de seus riffs que, ocasionalmente, os mantém além do necessário.
Essa reserva vale para o trabalho como um todo. As quatro composições justificam em grande parte suas extensões, mas nem todas as ideias evoluem durante o tempo em que permanecem em cena. Há momentos nos quais a insistência amplia a atmosfera e outros em que apenas adia a próxima transição. O formato de 36 minutos impede que esse problema se transforme em exaustão, mas uma edição mais rigorosa poderia tornar o impacto ainda maior.
A produção preserva as arestas sem reduzir o disco a uma gravação deliberadamente precária. As guitarras são secas e granuladas, a bateria mantém presença orgânica e os vocais não recebem tratamento que atenue sua abrasividade. Ao mesmo tempo, a separação entre os instrumentos permite acompanhar as melodias sobrepostas e as mudanças rítmicas. Gravado, mixado e produzido por Bjørnar Erevik Nilsen, do Vulture Industries, e masterizado por Øystein G. Brun, da BORKNAGAR, o álbum encontra um ponto intermediário entre exposição e definição.
“En Skog av Nidstang” não revisita a trilogia iniciada por “Nattestid Ser Porten Vid” (1999), tampouco abandona as experiências que definiram a fase posterior da TAAKE. Seu mérito está em aproximar essas duas dimensões. A agressividade e a frieza do black metal norueguês permanecem intactas, mas são conduzidas por uma escrita que aceita melodias amplas, desvios progressivos, elementos folclóricos e momentos de contemplação sem perder a identidade.
Depois de 30 anos, Hoest não precisa demonstrar pertencimento a uma tradição que ajudou a prolongar. O que importa neste nono álbum é sua capacidade de continuar escrevendo riffs imediatamente reconhecíveis como TAAKE, mesmo quando suas formas se alteram. “En Skog av Nidstang” apresenta um projeto menos fragmentado, mais concentrado e ainda disposto a caminhar por regiões pouco confortáveis de sua própria linguagem. Um disco que reafirma o poder que o black metal norueguês ainda possui.
FAIXAS QUE MERECEM ATENÇÃO
“Einstoeingen og Eg” e “Engler”
8.0/10
(Daniel Aghehost)