MENU
PRIMEIRAS IMPRESSÕES: SOJOURNER - Gateways (2026)
Por Daniel Aghehost
Publicado em 28/10/2026 09:45
Resenhas

SOJOURNER – Gateways

Nova Zelândia | Atmospheric Black Metal

Avantgarde Music | Clique aqui para adquirir

2026

 

FORMAÇÃO

Mike Lamb - Guitars

Emilio Crespo - Vocals

Heike Langhans - Vocals

Mike Wilson - Bass

Riccardo Floridia - Drums

 

PRIMEIRAS IMPRESSÕES 

Seis anos separam “Gateways” de “Premonitions”, mas o silêncio da SOJOURNER nesse intervalo não deve ser confundido com imobilidade. Mudanças de formação, deslocamentos entre países, projetos paralelos e transformações pessoais praticamente desmontaram a rotina que havia sustentado a banda durante seus primeiros anos. Quando Mike Lamb e Emilio Crespo decidiram retomar o trabalho, havia uma questão maior do que simplesmente escrever um quarto álbum: era necessário descobrir se aquela música ainda representava as pessoas que a criavam.

“Gateways” nasce justamente dessa pergunta.

Lançado pela Avantgarde Music, o disco reúne sete composições em pouco mais de 47 minutos e marca a estreia de Heike Langhans como integrante permanente da banda. Ex-DRACONIAN e atualmente também na REMINA, ela não assume somente os vocais limpos: participa da reconstrução da identidade da banda e é responsável por toda a arte e pelo projeto gráfico do álbum. Mike Lamb escreveu todas as músicas e também produziu, gravou, mixou e masterizou o trabalho no Ghost Bird Studios, em Dunedin, Nova Zelândia; Emilio Crespo escreveu as letras das seis primeiras faixas, enquanto Langhans assina o texto de “The Road Ahead”.

Essa concentração de responsabilidades ajuda a explicar a unidade de “Gateways”. Mesmo sendo uma banda espalhada geograficamente, o disco não soa como um conjunto de arquivos enviados entre músicos. Há uma visão bastante clara conduzindo os arranjos, e ela está menos preocupada em reforçar a definição de atmospheric black metal do que em ampliar aquilo que a SOJOURNER entende como sua própria linguagem.

A própria banda atualmente prefere falar simplesmente em atmospheric metal. Faz sentido. Ainda existem tremolos, blast beats, vocais rasgados e longos desenvolvimentos atmosféricos, mas “Gateways” também absorve doom, gothic metal, melodic death metal, folk e até elementos de goth rock sem parecer preocupada em estabelecer fronteiras entre eles. Mike Lamb admite que essas influências sempre estiveram presentes; a diferença é que agora a produção e os arranjos conseguem equilibrá-las com maior clareza. 

“Dawnrays” é uma boa demonstração desse novo equilíbrio.

O início é deliberadamente contido, com piano e teclados abrindo espaço antes de as guitarras ganharem corpo. Quando a música finalmente se expande, não ocorre uma simples passagem de introdução atmosférica para black metal: camadas vão sendo acrescentadas gradualmente até que bateria, riffs e vocais ásperos alterem por completo a escala da composição.

Não é por acaso que ela abre o álbum. Lamb escreveu suas primeiras partes já imaginando uma possível abertura, e Crespo imediatamente percebeu que também poderia funcionar como introdução para os shows. Musicalmente, representa a SOJOURNER de 2026; liricamente, Crespo escreveu sobre um período de esgotamento mental e sobre a necessidade de recuperar a própria existência. A imagem da alvorada, portanto, não funciona apenas como paisagem. É renascimento.

Esse significado torna a segunda metade da música ainda mais importante. “Dawnrays” cresce justamente quando abandona a contemplação inicial e transforma aquela melancolia em movimento. Heike entra sem disputar espaço com Crespo; sua voz amplia a melodia enquanto o vocal extremo mantém a composição ancorada no peso.

Esse diálogo vocal é uma das mudanças mais perceptíveis de “Gateways”.

Seria fácil utilizar Langhans apenas como contraponto etéreo aos vocais de Crespo e repetir a velha fórmula de contraste entre voz limpa feminina e vocal extremo masculino. A SOJOURNER, porém, evita transformar essa relação em mecanismo previsível. Há momentos em que uma voz sucede a outra, outros em que diferentes linhas se sobrepõem, e vários em que Heike deixa de funcionar como elemento de contraste para assumir a própria condução da música.

“And the Paintings Fall” mostra isso com especial eficiência.

Também é uma faixa importante porque revela algo inesperado sobre o universo lírico do álbum. Apesar de seu título sugerir memória, destruição ou decadência, a letra nasceu de “Clair Obscur: Expedition 33” (Nota: Clair Obscur: Expedition 33 é um RPG de fantasia sombria lançado em 2025, ambientado em um mundo marcado por ciclos de morte, memória e resistência. Sua narrativa acompanha um grupo que parte em uma missão contra uma entidade conhecida como Paintress, responsável por determinar, a cada ano, quais vidas serão apagadas). Crespo reconta parte da narrativa do jogo até o encerramento de seu segundo ato, enquanto Lamb construiu a música sem tentar enquadrá-la em uma fórmula preexistente da banda. Segundo o próprio compositor, é uma das representações mais diretas de como ele entende a SOJOURNER atualmente.

Essa liberdade aparece nos arranjos. As guitarras deixam de funcionar apenas como massa atmosférica e passam a assumir frases melódicas muito mais evidentes. O peso continua presente, mas existe maior atenção à progressão harmônica, às pausas e aos espaços deixados para os vocais. Elementos góticos aparecem sem transformar a composição em gothic metal propriamente dito; são parte da atmosfera, não um novo gênero assumindo a música.

“Lunar Tear” aprofunda outro aspecto pouco evidente à primeira vista.

A composição é inspirada em “NieR: Automata” e trabalha perspectivas ligadas a 2B, 9S e A2 (Nota: 2B, 9S e A2 são personagens centrais de NieR: Automata. Ao longo do jogo, suas trajetórias abordam temas como identidade, memória, consciência, perda e sentido da existência). Crespo não utiliza o jogo apenas como fonte de imagens: interessa-se pela maneira como sua narrativa aborda violência, identidade, perda e sentido da existência. Lamb, por sua vez, escreveu a música especificamente com aquele universo em mente, buscando traduzir musicalmente a beleza de suas ruínas e espaços abandonados sem simplesmente imitar sua trilha sonora.

Existe inclusive uma curiosidade de estúdio que ajuda a perceber quanto “Gateways” se permite experimentar: na seção central, Lamb introduziu um clarinete contrabaixo, instrumento muito distante dos recursos normalmente associados ao atmospheric black metal. Ele aparece não como excentricidade, mas como alteração de textura. E funciona!

Isso diz bastante sobre o disco.

Há inúmeros detalhes escondidos abaixo da camada mais evidente das guitarras. Teclados, timbres orquestrais e pequenas intervenções aparecem mais como elementos de composição do que como ornamentação. A produção é cheia, mas raramente congestionada. Lamb conseguiu preservar separação suficiente entre as camadas para que a música continue respirando mesmo quando bateria, guitarras, sintetizadores e duas linhas vocais ocupam simultaneamente o arranjo.

“Occultation” representa o lado mais escuro dessa abordagem.

O título veio de uma coletânea de contos de Laird Barron, um dos escritores favoritos de Mike Lamb, e a composição também absorveu impressões de leituras de Brian Evenson e Brian Hodge. Crespo, trabalhando independentemente, chegou às letras inspirado parcialmente pela leitura de “Alchemised”: seu personagem é alguém progressivamente destruído e humilhado até reagir e reproduzir a própria violência que sofreu.

Essa origem literária combina com a própria música, mais inquieta e menos confortável do que boa parte do álbum. “Occultation” não abandona as melodias características da SOJOURNER, mas as coloca sob maior tensão. A bateria avança com intensidade, as guitarras ganham aspereza e Crespo ocupa mais espaço, impedindo que o repertório se acomode demais na beleza da voz de Heike.

É também aqui que uma pequena limitação de “Gateways” começa a aparecer. A banda gosta de construir suas músicas por expansão: introduções relativamente abertas, crescimento gradual, entrada do peso, novos recuos e outra ascensão. O recurso é eficiente, mas sua repetição ao longo de algumas faixas torna certos desenvolvimentos previsíveis. A qualidade dos arranjos impede que a fórmula se desgaste completamente, embora nem todas as composições possuam a mesma identidade imediata.

“Epitaphs” quebra parcialmente esse fluxo.

A música já era conhecida desde dezembro de 2024, quando foi lançada como single digital, e acabou funcionando como primeiro sinal público dessa nova formação. Dentro do álbum, porém, seu significado cresce.

A letra abandona os universos de videogames e entra diretamente numa reflexão sobre conflito, incapacidade de convivência e repetição histórica da violência. Crespo fala em romper ciclos antes que a humanidade termine reduzida à memória daquilo que poderia ter sido. Lamb amplia essa interpretação ao considerar “Epitaphs” também uma forma de recordar pessoas que perdeu e, em escala maior, um epitáfio para a primeira fase da própria SOJOURNER.

A faixa funciona, portanto, como centro conceitual do disco.

Se “Gateways” fala sobre atravessar alguma coisa, “Epitaphs” lembra que toda passagem pressupõe abandonar algo do outro lado.

É depois dela que surge “Vvardenfell”, talvez a música mais diretamente ligada às origens do grupo.

O título não é simplesmente uma referência genérica à fantasia. Vvardenfell é a ilha vulcânica onde se passa grande parte de The Elder Scrolls III: Morrowind, jogo que marcou profundamente Mike Lamb na juventude. Ao revisitá-lo anos depois, o músico quis recuperar musicalmente não apenas aquele universo, mas a memória de como ele o percebia no início dos anos 2000. A própria banda reconhece que essa é a composição que mais deliberadamente recupera suas raízes no atmospheric black metal que caracterizou a banda.

Por isso sua posição como penúltima faixa é inteligente.

Se ela aparecesse no começo, “Gateways” poderia parecer um retorno seguro ao passado. Surgindo depois que o álbum já apresentou sua nova identidade, funciona como memória.

Há mais espaço para a sensação de jornada, para percussões de caráter marcial e para aquele sentido de vastidão que sempre aproximou a SOJOURNER de paisagens imaginárias. É o momento em que o disco olha para trás antes de seguir definitivamente adiante.

E esse movimento desemboca em “The Road Ahead”.

A última faixa foi deliberadamente escrita por Mike Lamb para destacar Heike Langhans. Diferentemente das seis anteriores, a letra também é dela. O arranjo foi simplificado para permitir que voz e texto carregassem o peso emocional da composição, enquanto Crespo ocupa uma posição menos dominante. 

O resultado é um encerramento que evita procurar uma conclusão grandiosa.

Heike escreve sobre abandonar versões antigas de si mesma, deixar para trás aquilo que já não pode ser recuperado e avançar mesmo sem saber exatamente o que existe depois. Há estradas, montanhas, oceanos, raízes arrancadas e constelações, mas tudo isso funciona menos como descrição de paisagem do que como metáfora de deslocamento.

É talvez a letra que melhor explica o título do álbum.

Um portal não é destino. É apenas o ponto em que se deixa de estar onde estava.

Essa mesma ideia aparece de maneira especialmente interessante na parte visual de “Gateways”. A capa foi concebida em conjunto por Lamb e Langhans e desenhada por Heike ao longo de semanas. Não se trata de uma paisagem genérica criada para cumprir a iconografia do atmospheric metal. A arquitetura gótica em ruínas ocupa o centro da imagem como uma estrutura monumental, mas grandes arcos continuam permitindo que a luz atravesse suas paredes. O céu dourado e esverdeado contrasta com pedra, sombra e montanha, criando exatamente a relação que domina o disco inteiro: beleza e deterioração coexistindo no mesmo espaço.

A SOJOURNER retorna depois de seis anos sem tentar recriar exatamente a banda que existia em “Premonitions”. Algumas características permanecem reconhecíveis, como as guitarras expansivas, melodias melancólicas, alternância vocal e atmosferas longas, mas a banda soa mais consciente de quando precisa abandonar a contemplação e permitir que uma música avance.

Heike Langhans certamente ocupa papel decisivo nessa mudança, mas reduzir o disco à chegada de uma nova vocalista seria injusto. Crespo apresenta alguns de seus trabalhos mais variados, Floridia dá mobilidade às transições entre explosão e contenção, Wilson sustenta uma produção carregada de camadas sem tentar disputar o primeiro plano, e Lamb demonstra principalmente uma evolução naquilo que talvez seja mais difícil em música atmosférica: saber quando uma ideia precisa continuar e quando precisa terminar.

Depois de uma década trabalhando com estradas, ruínas, florestas, distâncias e horizontes, a SOJOURNER finalmente transforma a própria trajetória em matéria de composição. Os lugares imaginários continuam presentes, mas agora dividem espaço com perdas reais, esgotamento, memória, literatura, videogames, mudança e reconstrução.

E é justamente por isso que o título funciona tão bem.

“Gateways” não celebra simplesmente o retorno da SOJOURNER: ele registra o momento em que a banda atravessa a porta e decide não voltar pelo mesmo caminho. E vamos falar a verdade: que outra banda conseguiria produzir temas tão bem construídos falando de videogames?

 

FAIXAS QUE MERECEM ATENÇÃO

“And the Paintings Fall”, “Lunar Tear”, “Epitaphs”  e “Vvardenfell”

 

9.0/10

 

(Daniel Aghehost)

 

Comentários
Comentário enviado com sucesso!