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PRIMEIRAS IMPRESSÕES: EINHERJER – Lifeblood (2026)
Por Daniel Aghehost
Publicado em 02/10/2026 09:47
Resenhas

EINHERJER – Lifeblood

NORUEGA | Viking Metal

By Norse Music | 

2026

 

FORMAÇÃO

Gerhard Storesund - Drums, Keyboards

Frode Glesnes - Vocals, Bass

Ole Sønstabø - Guitars (lead)

Tom Enge - Guitars

 

PRIMEIRAS IMPRESSÕES 

Meu primeiro contato com a EINHERJER aconteceu por meio da demo “Aurora Borealis”, lançada em 1993. Até hoje, tenho esta demo como uma das melhores coisas que já ouvi na vida! A fusão entre a atmosfera pagã, ainda distante das convenções que mais tarde cercariam o viking metal, e a aspereza do black metal norueguês me conquistou imediatamente. Quando “Dragons of the North” surgiu, em 1996, estranhei bastante a direção adotada pelo grupo. Embora hoje seja reconhecido como um dos trabalhos fundamentais para a consolidação do viking metal, com composições longas, arranjos acústicos, teclados e uma dimensão épica ainda atravessada pelo metal extremo, o álbum soava, para mim, distante da espontaneidade de sua demo. Afastei-me naquele momento e deixei de acompanhar praticamente toda a trajetória construída pela banda nas décadas seguintes.

“Lifeblood”, décimo álbum de estúdio da EINHERJER, poderia representar uma oportunidade de retomar esse contato interrompido. Lançado em 19 de junho de 2026 pela By Norse Music, cinco anos depois de “North Star”, o trabalho reúne oito faixas distribuídas por pouco mais de cinquenta minutos. Frode Glesnes e Gerhard Storesund, fundadores do grupo em Haugesund, continuam formando seu núcleo criativo, acompanhados pelos guitarristas Ole Sønstabø e Tom Enge. A experiência acumulada por essa formação pode ser percebida na execução segura, na produção cuidadosa e na facilidade com que a banda transita entre o heavy metal tradicional, o black metal, as melodias folk e os arranjos grandiosos. O problema é que tamanha competência raramente se converte em música realmente envolvente.

O conceito de “Lifeblood” gira em torno de pertencimento, herança, memória e das forças que continuam atravessando as gerações. Parte dessa inspiração vem de Karmsundet, estreito localizado na costa oeste da Noruega, próximo à região em que Glesnes e Storesund cresceram. A passagem marítima integrava a antiga rota conhecida como Norvegen, associada à origem do próprio nome do país, e durante séculos transportou embarcações, mercadorias e personagens da história norueguesa. O mar, as correntes e as marés funcionam, portanto, como representações daquilo que permanece circulando sob a vida moderna: lembranças, instintos, tradições e vínculos com o lugar de origem.

É uma concepção interessante, sobretudo porque evita a abordagem superficial e caricatural adotada por tantas bandas associadas ao viking metal. A EINHERJER não transforma a cultura nórdica em fantasia de taberna, tampouco reduz sua herança a batalhas, martelos erguidos e banquetes em Valhalla. O conteúdo de “Lifeblood” possui profundidade e ligação verdadeira com a história de seus integrantes. Musicalmente, porém, essa riqueza conceitual quase nunca encontra uma forma igualmente expressiva. O disco fala sobre correntezas, mas passa a maior parte do tempo preso ao mesmo lugar.

Um coro épico marca o início de “Bloodborn”, faixa que apresenta as principais intenções do álbum por meio de riffs pesados, acentuações rítmicas pouco convencionais e uma bateria que mantém a composição em movimento sem depender de velocidade constante. Os vocais ásperos de Frode Glesnes preservam a ligação da banda com o metal extremo, enquanto teclados e vozes sobrepostas ampliam sua dimensão épica. Impactante, a música não se acomoda na previsibilidade de uma simples marcha heroica: suas mudanças internas e a maneira como os riffs se desdobram revelam uma construção mais elaborada do que sua aparente objetividade sugere. Como abertura, “Bloodborn” eleva consideravelmente as expectativas. O problema é que, à medida que a audição avança, poucas faixas concretizam tudo aquilo que ela anuncia.

“At the Threshold’s End” já torna evidentes algumas das limitações que acompanharão o restante do trabalho. Os riffs possuem peso, os arranjos são bem executados e a seção rítmica procura introduzir pequenas variações, mas a composição parece permanentemente à espera de um acontecimento que nunca chega. Coros e teclados são acrescentados para aumentar sua grandiosidade, embora essa ampliação permaneça na superfície. A música soa maior, mas não necessariamente mais intensa. Quando termina, deixa a sensação de que a EINHERJER trabalhou cuidadosamente sobre uma ideia pouco memorável.

“Gone” reduz o andamento e introduz os vocais limpos de Tom Enge em uma reflexão sobre morte, ausência e o desaparecimento gradual de uma vida dentro da memória. É uma das letras mais pessoais do álbum e possui um tema capaz de ultrapassar os limites da mitologia ou da tradição nórdica. Ainda assim, a composição alonga seus motivos sem desenvolver plenamente a emoção sugerida por eles. A melancolia permanece excessivamente controlada, cercada por uma produção que organiza cada elemento com clareza, mas raramente permite que algo soe vulnerável, imprevisível ou verdadeiramente doloroso. Falta peso, falta agressividade.

A duração começa a pesar de maneira ainda mais evidente em “Malstrøm”. Seus oito minutos e meio procuram reproduzir a força circular de um redemoinho por meio de riffs reiterados, andamento moderado e camadas atmosféricas que se acumulam lentamente. A repetição possui, portanto, uma justificativa conceitual, mas isso não impede que a música se torne cansativa. Em vez de provocar uma sensação hipnótica, a faixa gira durante tempo demais ao redor de um núcleo bastante simples. Os teclados criam amplitude, alguns detalhes percussivos acrescentam textura e o solo de guitarra oferece um breve desvio, porém nenhum desses recursos altera de maneira significativa o rumo da composição. Confesso que, aqui, a audição se tornou extremamente cansativa.

Esse é um dos principais problemas de “Lifeblood”. A EINHERJER utiliza coros, teclados e melodias folk para ampliar seus riffs, mas essas camadas raramente transformam a estrutura das canções. Os mesmos motivos são prolongados, engrossados e reapresentados sob diferentes intensidades. A atmosfera cresce ao redor da música, enquanto seu centro permanece quase imóvel. O resultado é um álbum que frequentemente confunde duração com desenvolvimento e solenidade com profundidade.

“Dei Så Ser” oferece a mudança mais perceptível do repertório. A presença dos violões, dos timbres tradicionais e dos vocais limpos interrompe a sucessão de riffs cadenciados e concede algum espaço à melodia. Existe nessa faixa uma delicadeza ausente no restante do trabalho, sobretudo em seus minutos iniciais. Quando guitarras elétricas e bateria entram em cena, porém, a banda volta a recorrer à mesma expansão previsível: a instrumentação cresce, o arranjo se torna mais volumoso e aquilo que começou de forma intimista termina novamente submetido à grandiosidade. Mesmo assim, é um dos poucos momentos em que o disco altera efetivamente sua linguagem e permite que o ouvinte respire.

“Arr For Arr” devolve “Lifeblood” ao terreno dos riffs pesados, das cadências marciais e dos coros solenes. A composição possui energia suficiente para evitar a completa estagnação, mas apresenta poucas ideias capazes de diferenciá-la do material anterior. A execução é sólida e a produção mantém todos os instrumentos perfeitamente posicionados, embora essa correção técnica reforce a impressão de uma banda trabalhando dentro de limites excessivamente conhecidos. Não existe risco, surpresa ou qualquer ruptura capaz de perturbar a marcha segura do álbum.

“Saltworn Runes” recupera alguma agressividade e se destaca justamente por reduzir parte da ornamentação. As guitarras ganham maior aspereza, a bateria imprime mais pressão e os vocais de Glesnes encontram um contexto mais favorável. É uma composição mais direta e próxima do metal extremo, sem tantas camadas tentando convencer o ouvinte de sua importância. Nem por isso se transforma em um momento excepcional, mas sua objetividade produz um impacto que boa parte do disco tenta alcançar por meio do excesso.

“The Eternal North” encerra o álbum com nove minutos de duração e a responsabilidade de reunir suas principais características. Riffs repetitivos, mudanças de andamento, melodias melancólicas, vocais ásperos, coros e teclados reaparecem em uma composição concebida como síntese. O problema é que, depois de quase três quartos de hora, esses elementos já foram apresentados e recombinados inúmeras vezes. A faixa não conduz a EINHERJER a uma conclusão nova; apenas reorganiza seu vocabulário e o prolonga. A grandiosidade anunciada pelos arranjos não encontra correspondência na força das ideias, fazendo com que o encerramento pareça maior do que realmente é.

Produzido, gravado e mixado por Frode Glesnes, com masterização de Tony Lindgren, “Lifeblood” possui uma sonoridade moderna, ampla e muito controlada. As guitarras conservam peso e definição, a bateria mantém presença mesmo nas passagens mais carregadas e os teclados ocupam o espaço necessário sem encobrir completamente os demais instrumentos. Nada soa tecnicamente inadequado. Paradoxalmente, essa precisão contribui para a falta de vitalidade do álbum. A produção elimina boa parte da sujeira, do atrito e da imprevisibilidade que poderiam dar alguma urgência às composições. Até os momentos mais agressivos parecem cuidadosamente administrados.

A EINHERJER conhece perfeitamente a linguagem que ajudou a estabelecer. Depois de mais de três décadas, a banda sabe quando introduzir um coro, como ampliar um refrão, em que ponto reduzir a instrumentação e de que maneira preparar a entrada de um solo. Essa experiência garante um disco profissional e coerente, mas também expõe certo automatismo. Cada elemento ocupa o lugar esperado e cumpre sua função sem produzir qualquer desconforto. Para uma música que pretende tratar de sangue, instinto, memória e forças ancestrais, falta justamente a sensação de que algo ainda pulsa de maneira indomável.

“Lifeblood” não é um fracasso técnico nem um desvio constrangedor dentro da discografia da EINHERJER. Seu problema é mais difícil de contornar: trata-se de um trabalho excessivamente seguro, arrastado e pouco inspirado. “Bloodborn” sugere um álbum mais vigoroso e dinâmico do que aquele que se apresenta nas faixas seguintes. “Dei Så Ser” oferece uma mudança bem-vinda, enquanto “Saltworn Runes” recupera alguma agressividade ao abandonar parte da ornamentação. Fora desses momentos, predominam composições longas, riffs pouco marcantes e arranjos atmosféricos empenhados em conferir grandeza a ideias que não conseguem sustentá-la.

Retomar o contato com a EINHERJER por meio deste álbum acabou reforçando parte do estranhamento que senti quando ouvi “Dragons of the North” em 1996. Evidentemente, “Lifeblood” apresenta uma banda mais experiente, madura e tecnicamente preparada. Ainda assim, aquela força primitiva encontrada em “Aurora Borealis” permanece muito distante. Sobram experiência, conceito e domínio da própria fórmula. Faltam urgência, inspiração e músicas capazes de permanecer na memória depois que os coros finalmente se calam.

 

FAIXAS QUE MERECEM ATENÇÃO

“Bloodborn”, “Dei Så Ser” e “Saltworn Runes”.

 

7.5/10

 

(Daniel Aghehost)

 

 

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