DEEP PURPLE – Splat!
Inglaterra | Classic Rock
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2026
FORMAÇÃO
TIan Paice - Drums, Percussion
Roger Glover - Bass, Vocals
Ian Gillan - Vocals
Don Airey - Keyboards, Organ
Simon McBride - Guitars
PRIMEIRAS IMPRESSÕES
A entrada de Simon McBride no DEEP PURPLE produziu efeitos que ultrapassam a substituição de Steve Morse. Em “=1”, lançado em 2024, a formação Mark IX já demonstrava uma química renovada, com guitarras mais incisivas e uma reaproximação do peso característico da banda. “Splat!”, 24º álbum de estúdio do grupo, confirma que aquele trabalho não representava apenas o entusiasmo inicial de uma nova configuração. O quinteto encontrou uma maneira de recuperar espontaneidade, vigor e prazer de tocar sem transformar o passado em uma prisão.
Novamente produzido por Bob Ezrin, o disco apresenta 13 composições em pouco mais de 50 minutos. Não existem longas suítes ou improvisações excessivas: as músicas adotam estruturas concisas, mas preservam espaço para os diálogos entre a guitarra de McBride e os teclados de Don Airey. Roger Glover e Ian Paice sustentam essa interação com a naturalidade de uma parceria construída ao longo de décadas. O resultado soa imediatamente familiar, embora distante de uma reconstrução artificial dos anos 1970.
“Arrogant Boy” estabelece esse equilíbrio na abertura. O andamento acelerado, a pulsação constante da bateria e as intervenções do Hammond evocam a urgência de “Highway Star” e “Fireball”, enquanto o timbre encorpado de McBride e a produção contemporânea mantêm a faixa no presente. Gillan acompanha com a história de Billy, personagem ridicularizado por desejar uma vida diferente daquela que lhe foi determinada.
Aos 80 anos, o vocalista já não precisa perseguir continuamente os registros extremos que o transformaram em uma das grandes vozes do hard rock. Sua interpretação atual está apoiada no fraseado, na narrativa e no sarcasmo. Em vez de esconder as marcas do tempo, Gillan as incorpora às canções. Quando os gritos aparecem, especialmente em “Guilt Trippin’”, funcionam como acentos dramáticos e ganham força justamente por serem utilizados com maior controle.
“Diablo” avança por um riff pesado e sinuoso, enquanto o Hammond de Airey ocupa os espaços deixados pela guitarra. A faixa recupera um elemento fundamental da identidade da DEEP PURPLE: guitarra e teclado atuando como vozes que se desafiam e disputam o centro da composição. A letra acompanha essa instabilidade com uma narrativa surrealista, repleta de brigas, vinho e imagens que parecem obedecer à lógica de um sonho.
O humor de Gillan também orienta “The Rider”, sátira às exigências extravagantes feitas por artistas em turnê. Musicalmente, o grupo evita transformar a narrativa em mero acompanhamento para a letra. A seção rítmica permanece ativa, com o baixo de Glover sustentando o movimento do arranjo enquanto Paice acrescenta pequenas variações capazes de preservar o balanço.
Em “The Lunatic”, o DEEP PURPLE expõe uma de suas qualidades atuais: a capacidade de construir músicas agitadas sem depender exclusivamente da velocidade. Airey cria uma base quase delirante nos teclados, McBride responde com intervenções curtas e Gillan explora o desconforto diante das transformações da linguagem e do mundo contemporâneo. Algumas dessas observações podem soar presas a reclamações geracionais, mas seu caráter caricatural impede que o álbum se torne um discurso excessivamente grave.
O humor absurdo reaparece em “The Only Horse in Town”, construída como uma conversa entre um homem e seu cavalo. Por trás da situação insólita, existe uma figura solitária, cercada por conforto material, mas incapaz de estabelecer vínculos reais. O arranjo acompanha essa estranheza sem abandonar a fluidez. A DEEP PURPLE não precisa tornar cada música pesada para preservar sua identidade; a interpretação de Gillan, o Hammond de Airey e a forma como Paice organiza o andamento são suficientes para que a faixa permaneça reconhecível.
“Sacred Land” promove uma das principais mudanças de atmosfera. As referências celtas e a ambientação nas terras altas escocesas afastam a composição do hard rock mais direto, embora guitarras e teclados conservem sua densidade. A experiência amplia o vocabulário do álbum, mesmo que a interpretação solene de Gillan ocasionalmente se aproxime de uma grandiosidade um pouco forçada.
A seção rítmica ganha evidência em “The Beating of Wings”. O baixo de Roger Glover assume uma movimentação fluida, próxima do funk, enquanto Ian Paice conduz o groove com uma naturalidade que esconde a complexidade de suas escolhas. McBride acompanha esse balanço com uma guitarra mais abrasiva, criando um dos momentos em que “Splat!” melhor revela a integração do quinteto: nenhum instrumento precisa dominar o arranjo para que todos sejam percebidos.
“Guilt Trippin’” amplia essa liberdade instrumental. A introdução conduzida pelo piano sugere uma direção jazzística antes de a banda entrar com maior intensidade. Gillan recupera alguns de seus gritos característicos, enquanto guitarra e teclado se enfrentam em passagens rápidas e cuidadosamente organizadas. A composição se aproxima do lado progressivo da DEEP PURPLE sem abandonar a concisão que orienta o restante do trabalho. As mudanças são numerosas, mas não parecem enxertadas apenas para exibir virtuosismo.
“Scriblin’ Gib’rish” transforma justamente essa irritação em uma composição pesada e movimentada. Os obstáculos digitais e a linguagem burocrática aparecem como símbolos de uma realidade que parece produzir cada vez mais informações e menos sentido. A banda responde com riffs diretos e um andamento vigoroso, encontrando na confusão temática um impulso musical eficiente.
“Jessica’s Bra”, título originado por um erro de digitação envolvendo a palavra “bar”, recupera o boogie e o blues que sempre permaneceram próximos da linguagem do grupo. O trocadilho pode parecer excessivamente juvenil, sobretudo em um disco que também procura discutir transformação, culpa e o destino da humanidade. A música, porém, funciona pelo balanço da seção rítmica e pelo modo descontraído como os teclados atravessam as guitarras. É um daqueles momentos em que o prazer da execução supera a fragilidade da ideia inicial.
Ian Paice retoma o protagonismo em “Third Call”, não por meio de demonstrações técnicas ostensivas, mas pela maneira como estabelece o groove e reage aos demais instrumentos. Paice continua sendo um baterista de enorme precisão, especialmente porque seu estilo nunca separou força e balanço. A faixa também evidencia a naturalidade da relação entre ele e Glover, uma parceria construída ao longo de décadas, mas ainda suficientemente atenta para evitar a execução automática.
“My New Movie” mantém o viés satírico, abordando a sucessão de ideias, projetos e promessas que cercam a indústria do entretenimento. Apesar do bom desempenho instrumental, a composição não apresenta o mesmo poder de síntese das melhores faixas. Em um álbum com 13 músicas, ela se aproxima da condição de preenchimento e evidencia que “Splat!” poderia ser ligeiramente mais enxuto. Não compromete o conjunto, mas reduz momentaneamente o impulso acumulado até então.
A faixa-título encerra o trabalho com sua ideia mais ampla. “Splat!” parte da imagem de uma humanidade colidindo contra o próprio futuro, mas não interpreta esse fim como simples destruição. Gillan imagina uma metamorfose para outro estágio de existência, tratando o tema com otimismo e certa dose de absurdo. Musicalmente, a composição reúne o groove da seção rítmica e o diálogo entre McBride e Airey sem buscar uma conclusão artificialmente monumental.
Bob Ezrin exerce novamente um papel decisivo. Sua produção preserva o peso e a clareza de cada instrumento, ao mesmo tempo que controla a tendência natural da banda a prolongar determinadas passagens. Os solos encontram espaço para se desenvolver, mas raramente ultrapassam o ponto em que ainda servem às músicas.
McBride confirma sua integração definitiva ao grupo ao combinar peso, fluidez e concisão sem tentar reproduzir Ritchie Blackmore ou Steve Morse. Mais importante do que demonstrar virtuosismo, o guitarrista compreende a necessidade de dialogar com o Hammond. Don Airey, por sua vez, já não precisa ser apresentado como substituto de Jon Lord. Depois de mais de duas décadas na banda, desenvolveu uma sonoridade própria dentro daquela tradição.
“Splat!” não está livre de irregularidades. Algumas letras envelhecem o álbum mais do que as vozes e os instrumentos, certos trocadilhos possuem efeito limitado e nem todas as 13 composições alcançam o mesmo nível. Ainda assim, seus melhores momentos mostram uma banda que não permanece ativa apenas pelo peso histórico do nome.
A grande qualidade do disco não está em fazer cinco veteranos parecerem jovens. A DEEP PURPLE respeita as transformações provocadas pelo tempo e encontra nelas outra forma de vitalidade. A banda não recuperou literalmente o som de 1972, nem precisava fazê-lo. Recuperou algo mais importante: a sensação de cinco músicos atentos ao momento de avançar, responder ou simplesmente abrir espaço para que uma boa composição encontre seu próprio caminho.
FAIXAS QUE MERECEM ATENÇÃO
“Arrogant Boy”, “The Beating of Wings”, “Guilt Trippin’” e “Splat!”
9.0/10
(Daniel Aghehost)