BEWITCHED – Diabolical Death Mass
Suécia | Black Thrash Metal
Osmose Productions |
2026
FORMAÇÃO
Vargher - Guitars, Vocals
Wrathyr - Bass
Hellfire - Guitars
Robert "Zoid" Sundelin - Drums
PRIMEIRAS IMPRESSÕES
Sempre achei curioso demais as bandas que retornam depois de tanto tempo. Em teoria, espero uma evolução natural, como se a banda resolvesse modernizar aquela sonoridade que nos pegou lá atrás. Espero ouvir maturidade, novas ideias, algum tipo de transformação. Mas às vezes tudo que quero, de verdade, é reencontrar uma sensação antiga e perceber que ela ainda funciona.
A volta da BEWITCHED carrega um pouco disso.
Depois de praticamente duas décadas sem um álbum completo e de uma reta final de carreira que dificilmente deixou saudade em todos os fãs (eu mesmo sequer ouvir os últimos trabalhos da banda), “Diabolical Death Mass” (lançado oficialmente no dia 24 de abril pela Osmose Productions) chega com uma proposta que fica evidente desde o título: olhar para trás sem vergonha nenhuma. Não existe tentativa de atualização, não existe preocupação em parecer moderna e muito menos qualquer esforço para dialogar com tendências atuais do metal extremo. A banda simplesmente voltou para tocar exatamente aquilo que sempre soube fazer.
E surpreendentemente ainda funciona.
Logo na abertura após a introdução, fica claro que estamos diante daquela velha fórmula sueca de black/thrash construída em riffs rápidos, refrãos simples e uma agressividade que nunca tenta parecer mais extrema do que realmente é. As músicas entram e saem rápido, sem grandes construções ou momentos contemplativos. É ataque direto.
A faixa-título já estabelece esse terreno muito bem. Existe algo quase confortável na maneira como tudo soa familiar. Os riffs carregam aquele espírito clássico entre VENOM, SLAYER e CELTIC FROST, enquanto baixo e bateria destroem tudo impiedosamente, sem tentar esconder referências. E talvez seja justamente esse o ponto: a BEWITCHED não está tentando provar nada aqui.
“Into The Fire” aparece como um desses momentos curtos e eficientes que ajudam o disco a manter ritmo. Não sobra espaço para respirar e, honestamente, nem parece existir interesse nisso. Já “Crossing The Styx” e “Black Spells and Unclean Spirits” entregam alguns dos momentos mais fortes do álbum, especialmente pela maneira como conseguem equilibrar velocidade com linhas melódicas discretas que ficam rondando a cabeça depois que a música acaba.
Mas talvez o momento que mais represente o espírito do retorno seja “(Fear The) Revenge Of The Ripper”. Existe algo quase carinhoso na forma como a banda retoma esse universo que ajudou a construir nos anos 90. Não parece nostalgia oportunista. Parece reencontro. Como revisitar um personagem antigo e descobrir que ele continua funcionando exatamente porque nunca tentou ser mais complexo do que precisava.
Outro grande momento aparece em “By Satan Enslaved”. Depois de um disco quase sempre acelerado e agressivo, a BEWITCHED desacelera sem perder força. Os riffs ganham mais espaço para respirar e revelam um lado surpreendentemente tradicional da banda, sustentados por uma condução de baixo e bateria que remete diretamente aos primórdios do heavy metal. Existe um peso diferente aqui, menos baseado em velocidade e mais em presença.
Essa mudança de dinâmica acaba funcionando muito bem dentro da reta final do álbum, porque cria o impulso perfeito para o último ataque. “Vicious and Wild” entra sem rodeios, direta e cortante, enquanto “The Witch Spell” adiciona mudanças de andamento que deixam a faixa mais imprevisível e carregada de tensão. “Those of the Devil Born” mantém essa sensação de urgência até o último minuto, fazendo o disco terminar com energia suficiente para dar vontade de apertar play novamente.
Os riffs certeiros de “Enforced by Evil” encerram o disco lembrando por que a BEWITCHED sempre funcionou tão bem dentro desse universo entre black e thrash metal. Não existe invenção nem tentativa de atualizar a fórmula. Existe apenas confiança absoluta em riffs rápidos, refrões diretos e aquela agressividade seca que marcou os melhores momentos da banda nos anos 90. É um fechamento simples, feroz e extremamente coerente com tudo o que “Diabolical Death Mass” constrói ao longo da audição.
Ao mesmo tempo, seria injusto ignorar uma limitação evidente do disco. “Diabolical Death Mass” raramente se arrisca. As músicas seguem estruturas muito próximas entre si e em alguns momentos o álbum parece mais interessado em manter o clima do que criar composições realmente memoráveis individualmente. Existe uma uniformidade muito grande aqui. Para alguns ouvintes isso pode soar repetitivo. Para outros, será justamente parte do charme.
Também chama atenção como a produção evita exageros modernos. Tudo soa seco, direto e sem grandes polimentos. Os vocais de Vargher aparecem um pouco menos encorpados do que em alguns registros clássicos da banda, mas acabam funcionando dentro dessa proposta mais enxuta e objetiva.
No fim das contas, “Diabolical Death Mass” não é o tipo de retorno que tenta reescrever a história da banda. E talvez seja exatamente por isso que ele funciona tão bem. A BEWITCHED não voltou para mostrar que evoluiu. Voltou para lembrar que ainda sabe fazer um black/thrash rápido, agressivo e extremamente honesto.
Às vezes reencontrar um velho amigo não precisa trazer novidade nenhuma. Basta perceber que ele continua sendo quem sempre foi.
FAIXAS QUE MERECEM ATENÇÃO
“Crossing The Styx”, “Black Spells and Unclean Spirits”, “(Fear The) Revenge Of The Ripper” e “The Witch Spell”
9.0/10
(Daniel Aghehost)