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PRIMEIRAS IMPRESSÕES: STREGA – Stryx Mortyis Kompendyum (202)
Por Daniel Aghehost
Publicado em 27/07/2026 10:29
Resenhas

STREGA – Stryx Mortyis Kompendyum

Itália | Blackened Heavy Metal

Frozen Woods Records | Clique aqui para adquirir

2026

 

FORMAÇÃO

Chris Von Acheron - Guitars

Lucky L. Diamante - Hammond, Synths

Stryx - Vocals

Sir Biff IV "The Headless" - Guitars

Khrura Abro - Bass

A.L. Costanzo - Drums

 

PRIMEIRAS IMPRESSÕES 

Em meio à avalanche diária de lançamentos, não é raro que bons trabalhos atravessem nossos aparelhos de som sem deixar marcas profundas. O impacto provocado por “Stryx Mortyis Kompendyum”, entretanto, segue o caminho contrário. Em pouco menos de meia hora, a italiana STREGA apresenta uma identidade suficientemente forte para despertar aquela sensação cada vez mais rara de descoberta: a impressão de que ainda existem territórios pouco explorados dentro de uma linguagem musical aparentemente familiar.

Lançado pela Frozen Woods Records, “Stryx Mortyis Kompendyum” reúne os dois primeiros EPs do grupo. As três faixas de “Stryx Strega Strygae”, originalmente lançado em 2025, aparecem remixadas e revisadas, enquanto o material de “Mors Mortiys Morte” inclui duas versões alternativas que passam a ser consideradas definitivas pela banda. Mais do que uma simples compilação, o trabalho consolida a primeira fase da STREGA e prepara o caminho para seu futuro álbum de estreia.

A sonoridade parte do heavy metal tradicional dos anos 1980, especialmente das guitarras harmonizadas e do senso de aventura característico do gênero, mas permite que vozes extremas, órgãos espectrais e atmosferas de fantasia sombria deformem essa estrutura. MERCYFUL FATE, KING DIAMOND, IRON MAIDEN e JUDAS PRIEST aparecem como referências possíveis, assim como nomes contemporâneos como MORGUL BLADE e THE GATES. A STREGA, contudo, não se limita a reproduzir esses modelos. As influências fornecem o vocabulário inicial, mas a banda procura construir sua própria gramática.

“Strix Strega Strygae” apresenta imediatamente essa proposta. Depois de uma introdução lúgubre, as guitarras assumem o centro da composição com riffs precisos, melodias ascendentes e harmonizações que preservam a clareza do heavy metal clássico. A produção oferece espaço suficiente para que essas linhas respirem, evitando que a quantidade de elementos transforme a faixa em uma massa indistinta. O contraste surge com os vocais de Stryx, muito mais ásperos e teatrais do que a base instrumental inicialmente faria supor.

Sua interpretação atravessa registros rasgados, guturais, declamações e harmonizações sem perder o controle dramático. As vozes não funcionam apenas como manifestação de agressividade: são personagens dentro da música. Os coros surgem de maneira pontual, ampliando a sensação cerimonial, enquanto os bumbos duplos aceleram o andamento antes de as guitarras retornarem às passagens melódicas. A faixa consegue ser grandiosa sem abandonar uma ameaça subterrânea, o que deixa tudo ainda mais interessante.

Esse estranhamento é intensificado pelo Arrakyan, idioma criado pela própria banda e utilizado em todas as letras. Como não existem traduções amplamente disponíveis, o ouvinte permanece afastado do significado literal das palavras. O que poderia representar um obstáculo torna-se um dos elementos mais particulares do trabalho. Sílabas, acentos e repetições passam a ser percebidos pelo valor rítmico e fonético, transformando a voz em parte da instrumentação. 

“Era Kuolemann” reforça o caráter hipnótico da proposta. As guitarras permanecem profundamente melódicas, enquanto baixo e bateria conduzem a faixa por um andamento que recupera a cadência e a atmosfera da NWOBHM. Khrura Abro não se limita a acompanhar as progressões: seu baixo dá corpo às transições e preenche os espaços deixados pelas guitarras. A.L. Costanzo, por sua vez, alterna conduções firmes e acelerações precisas sem comprometer a fluidez da composição. Essa base rítmica sustenta a teatralidade da STREGA, que ganha maior dimensão com a entrada dos teclados, dos coros e das guitarras afiadas, conduzindo a música aos seus momentos mais grandiosos.

“Til-Aar Hyleventïdar”, faixa mais longa da coletânea, acentua o lado mais extremo da STREGA sem abandonar as bases do heavy metal tradicional. Os vocais mais agressivos de Stryx intensificam o peso da composição, enquanto as guitarras mantêm o caráter melódico por meio de riffs harmonizados e solos bem construídos. As variações de intensidade e as mudanças no trabalho da bateria dão movimento ao arranjo, evitando que a música dependa apenas de um riff ou refrão central. É justamente o equilíbrio entre agressividade, melodia e teatralidade que transforma a faixa em um dos grandes momentos do trabalho. Destaco sua parte final, que empolga qualquer apaixonado pelo verdadeiro metal.

Com “Aar-Y-Mhana De Vek’Nha”, o segundo núcleo da coletânea começa sem rupturas estilísticas. Guitarras grandiosas conduzem seu caráter épico, sustentadas por baixo e bateria, enquanto órgãos e sintetizadores acrescentam profundidade sem encobrir os riffs. Stryx enfatiza os vocais viscerais, ampliando a atmosfera ocultista e tornando a faixa uma das mais envolventes do trabalho.

Os teclados são fundamentais para compreender a STREGA. Hoje assumidos por Lucky L. Diamante, embora as gravações do primeiro EP tenham contado com Il Diavolo Misterioso como convidado, eles deslocam as composições do terreno do heavy metal tradicional para uma região mais obscura. O Hammond não aparece como simples camada atmosférica. Em determinados momentos, ele interfere diretamente na percepção das harmonias e acrescenta uma dimensão litúrgica às músicas. 

De início ritualístico, “Inna! Ulthar!” reúne algumas das qualidades mais cativantes da coletânea. O andamento cavalgado e as sutis intervenções dos teclados sustentam uma abordagem mais direta, menos carregada pela atmosfera ocultista da primeira metade do trabalho. O ponto alto surge no diálogo entre as guitarras e o Hammond, que amplia a força melódica do arranjo. Mesmo sem compreender o Arrakyan, é difícil resistir ao poderoso refrão.

A faixa-título “Mors Mortiys Morte” encerra o trabalho de maneira direta, reunindo riffs vigorosos, solos refinados, melodias marcantes e teclados solenes. Os falsetes de Stryx reforçam a proximidade com o MERCYFUL FATE, mas não anulam a personalidade construída pela STREGA ao longo da coletânea. Concisa e inspirada, a música confirma a capacidade da banda de renovar elementos tradicionais do heavy metal sem descaracterizá-los.

Essa sensação evidencia tanto a qualidade quanto a limitação de “Stryx Mortyis Kompendyum”. Seus 27 minutos são suficientes para comprovar a personalidade da STREGA, mas não permitem saber até onde a banda consegue desenvolver sua narrativa em uma obra mais extensa. Por reunir dois EPs, a coletânea apresenta fragmentos de uma mitologia em formação, não uma jornada dotada de arco completo. Ainda assim, a coesão alcançada entre os dois materiais faz com que o lançamento ultrapasse a condição de simples arquivo dos primeiros passos do grupo.

A formação atual, com Stryx nos vocais, Chris Von Acheron e Sir Biff IV “The Headless” nas guitarras, Khrura Abro no baixo, A.L. Costanzo na bateria e Lucky L. Diamante nos teclados, parece ter encontrado um território particularmente fértil. O mérito não está em fingir que o passado do heavy metal nunca existiu, mas em utilizar seus elementos para sustentar uma fantasia própria. As harmonias são familiares, os órgãos carregam ecos reconhecíveis e os vocais remetem ao metal extremo, porém o encontro dessas partes possui uma estranheza genuína.

“Stryx Mortyis Kompendyum” registra uma banda ainda no início de sua trajetória, mas já consciente de sua estética, de seu vocabulário e da atmosfera que pretende construir. Entre o heroísmo melódico do heavy metal e a aspereza do black metal, a STREGA encontrou uma passagem para um mundo cuja história talvez ainda não compreendamos. Por enquanto, compreender não parece ser necessário: basta permitir que o sortilégio produza seus efeitos.

 

FAIXAS QUE MERECEM ATENÇÃO

“Strix Strega Strygae”, “Til-Aar Hyleventïdar” e “Mors Mortiys Morte”

 

9.5/10

 

(Daniel Aghehost)

 

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