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PRIMEIRAS IMPRESSÕES: BLACK CILICE – Votive Fire (2026)
Por Daniel Aghehost
Publicado em 12/06/2026 14:20
Resenhas

BLACK CILICE – Votive Fire

Portugal | Raw Black Metal

Iron Bonehead Productions

2026

 

 

 

PRIMEIRAS IMPRESSÕES 

Existe algo curioso na trajetória da BLACK CILICE. Mesmo habitando aquele território quase hermético do raw black metal, um estilo que frequentemente desafia até ouvintes acostumados ao black metal mais extremo, o projeto português conseguiu construir, ao longo dos anos, uma identidade absolutamente própria dentro desse caos enevoado. E talvez o mais interessante seja perceber como essa evolução aconteceu sem abandonar a essência caótica e ritualística que sempre definiu sua música.

“Votive Fire” surge após um intervalo de quatro anos após seu último trabalho (o maravilhoso “Esoteric Atavism”) e deixa clara uma mudança que já vinha aparecendo nos últimos trabalhos. A BLACK CILICE continua brutalmente crua, nebulosa e desconfortável, mas existe muito mais espaço para que as músicas respirem e revelem detalhes escondidos sob aquela massa sonora sufocante. Se discos antigos pareciam verdadeiros túneis de vento feitos de distorção e histeria, aqui a sensação é diferente. Ainda existe névoa, ainda existe tormento, mas agora o ouvinte recebe uma pequena lanterna para atravessar esse caos.

O álbum inteiro funciona quase como um negro ritual contínuo dividido em quatro longas composições. E embora a produção permaneça profundamente abrasiva, há uma riqueza impressionante escondida sob a sujeira. As guitarras repetem padrões hipnóticos que lentamente vão se transformando, enquanto a bateria ganha uma presença muito mais física desta vez. O bumbo surge quase tribal nos momentos mais lentos, criando pulsações que tornam a experiência menos opressiva e mais meditativa. Isso talvez seja o aspecto mais surpreendente de “Votive Fire”: ao invés de tentar assustar o tempo inteiro, o disco parece interessado em conduzir o ouvinte para dentro de um estado de introspecção melancólica.

“Released by Fire” já estabelece perfeitamente essa proposta. Em uma audição distraída, a música pode soar como puro caos disforme. Mas conforme os riffs começam a se repetir e pequenas mudanças de dinâmica surgem lentamente, o disco revela uma estrutura extremamente cuidadosa. Há um momento próximo do encerramento da faixa em que tudo desacelera e os acordes passam a ecoar em espaços mais abertos enquanto a bateria cresce lentamente antes da explosão final. É uma passagem quase bela dentro de um álbum que continua mergulhado em desespero e decadência.

“Vows Sworn for Centuries” talvez seja a faixa que melhor demonstra como a BLACK CILICE evoluiu na construção de riffs. Existe uma melodia escondida sob os blasts cristalinos e as guitarras enevoadas que permanece reverberando mesmo depois da música terminar. Já “Into the Inner Temple” aprofunda ainda mais o lado ritualístico do álbum. As guitarras assumem tons quase solenes em alguns momentos, enquanto os vocais surgem como entidades distantes gritando através da fumaça e da ruína. Há uma sensação constante de corrupção espiritual atravessando a música inteira.

O encerramento com “Deconstruction of All Realities” leva o álbum ao seu ponto mais intenso e quase transcendental. As camadas de guitarra parecem colidir umas contra as outras enquanto os vocais se multiplicam no fundo da mixagem como espíritos presos em algum tipo de cerimônia profana. Em determinados momentos, a BLACK CILICE simplesmente deixa a música incendiar tudo ao redor sem tentar controlar o caos. E talvez seja justamente aí que “Votive Fire” encontra sua força máxima. Não como um exercício de violência sonora gratuita, mas como uma experiência profundamente imersiva e emocionalmente esmagadora.

O mais impressionante é que o álbum consegue soar extremamente cru sem transformar essa sujeira em simples fachada estética. Muitos projetos do chamado raw black metal acabam utilizando a sujeira como substituto para composição. A BLACK CILICE faz o contrário. Toda aquela névoa sonora serve para esconder detalhes, melodias e atmosferas que só começam a surgir plenamente depois de várias audições. “Votive Fire” não é um disco feito para impacto imediato. É um álbum que lentamente arrasta o ouvinte para dentro de sua própria escuridão até que aquele ruído aparentemente impenetrável passe a revelar algo estranhamente melancólico e humano.

 

FAIXAS QUE MERECEM ATENÇÃO

“Vows Sworn for Centuries” e “Deconstruction of All Realities”.

 

9.5/10

 

(Daniel Aghehost)

 

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