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PRIMEIRAS IMPRESSÕES: GREEN CARNATION - A Dark Poem, Part II: Sanguis (2026 - Season of Mist)
Por Daniel Aghehost
Publicado em 07/04/2026 10:19
Resenhas

GREEN CARNATION - A Dark Poem, Part II: Sanguis

(Season of Mist)

 

PRIMEIRAS IMPRESSÕES

GREEN CARNATION continua sendo uma das bandas mais elegantes e profundas do progressive metal norueguês. No início dos anos 2000, quando a internet ainda engatinhava, a banda era “vendida” na galeria como o “projeto obscuro” do baixista Tchort (o que, invariavelmente, levava todos a acreditarem que se tratava de uma sonoridade muito próxima à EMPEROR. Ledo engano). Desde o início, com o extremamente progressivo “Journey to the End of the Night” (2000), passando pelo conceitual *Light of Day, Day of Darkness* (2001 – e sua única faixa, totalizando 60 minutos de uma belíssima suíte progressiva), o grupo liderado por Stein Roger Sordal constrói uma carreira marcada por atmosferas sombrias, melancolia refinada e uma fusão orgânica entre o prog old school e texturas modernas de metal. Tudo aqui sempre foi muito mais Progressive rock dos anos 70 do que o metal extremo que os fãs do estilo buscavam. Depois do retorno em 2020 com *Leaves of Yesteryear* e da primeira parte da trilogia *A Dark Poem* (*The Shores of Melancholia*, 2025), chega agora *A Dark Poem, Part II: Sanguis*, lançado em 3 de abril de 2026 via Season of Mist.

Com pouco mais de 37 minutos, este segundo capítulo mergulha ainda mais fundo no território pessoal e emocional. Enquanto a Parte I era mais agressiva e bombástica, *Sanguis* foca em temas íntimos de trauma familiar, solidão, amargura e redenção. Kjetil Nordhus entrega uma performance vocal carregada de paixão, e a banda equilibra nuances de doom metal com momentos de delicada vulnerabilidade. É o meio de uma trilogia planejada que promete ser um dos pontos altos da discografia da banda.

O álbum abre com a épica “Sanguis”, uma das composições mais prog da banda em anos. Começa com tons de órgão ondulantes e timbres melódicos amargos, mantendo certa densidade pesada. As letras de Sordal, inspiradas em memórias de infância traumática, explodem em imagens cruas de horror doméstico. Nordhus canta com intensidade emocional, enquanto a banda constrói uma fúria catártica que culmina em harmonias sufocantes. É um começo poderoso e visceral.

“Loneliness Untold, Loneliness Unfold” traz uma mudança radical de clima. Quase uma balada minimalista, sustentada por uma guitarra delicada e a voz trêmula de Nordhus (com participação de Sordal nos vocais). É íntima, frágil e dolorosamente honesta. Um momento de respiro que expõe a solidão sem filtros.

Em seguida, “Sweet to the Point of Bitter” retoma o peso com riffs turbulentos, evocando o que de mais pesado o doom metal já produziu. As letras refletem autoconhecimento amargo e resiliência. A faixa alterna entre momentos de desespero e vislumbres de luz, com uma dinâmica que lembra o doom melancólico de CANDLEMASS, mas com a assinatura progressiva da GREEN CARNATION.

“I Am Time” é uma das mais belas do disco. Repleta de momentos épicos, onde fica clara a exuberante técnica de Stein Sordal e Bjørn Harstad nas guitarras (onde Sordal também conduz o baixo), o teclado de Endre Kirkesola e a refinada bateria de Jonathan Perez. Tudo aqui funciona perfeitamente, criando as atmosferas perfeitas para que Nordhus brilhe com vocais emocionados e belissimamente melancólicos. Cheia de resignação e arrependimento, suas harmonias conseguem transmitir esperança em meio ao caos. A letra personifica o tempo como algo inescapável, com arranjos fluidos que misturam melodia e peso de forma orgânica.

“Fire in Ice” traz um contraste dinâmico: pessimismo e desespero diante da natureza e da vida, com crescendo metálico vigoroso, riffs ornamentados e vocais expressivos de Nordhus. A faixa questiona ilusões e falsas narrativas, culminando em uma reflexão sobre compaixão e perda.

O fechamento com “Lunar Tale” é puro despojamento emocional. Piano melancólico, batidas abafadas e guitarras acústicas leves sustentam as letras honestas de Sordal sobre culpa, dor e a necessidade de partir. É uma conclusão tocante, que deixa o ouvinte com o coração apertado e ansioso pela terceira parte da trilogia.

*A Dark Poem, Part II: Sanguis* é um trabalho maduro, íntimo e emocionalmente pesado. A GREEN CARNATION fez a escolha certa ao tirar um pouco do peso e da dramaticidade exagerada que tinha na primeira parte para priorizar vulnerabilidade e narrativa pessoal, sem perder a elegância progressiva que define a banda. As composições fluem com naturalidade, os vocais de Nordhus brilham e as letras de Sordal tocam em feridas reais com honestidade rara. Pode ser difícil de ouvir em alguns momentos pela intensidade temática, mas é recompensador em todos os outros. Este capítulo reforça o status da banda como mestres da melancolia elevada a arte. 

 

EM POUCAS PALAVRAS:

 

DESTAQUES:

Destaque para a abertura épica com “Sanguis” e também para a música “I am Time”, onde conseguimos facilmente perceber a requintada técnica dos músicos.

 

PONTOS DE ATENÇÃO:

Este não é um disco de metal extremo. Este disco agradará ao ouvinte dos discos recentes de bandas como IN THE WOODS, AMORPHIS e KATATONIA, podendo irritar profundamente quem ojeriza o que estas bandas fazem atualmente.

 

EXTRA-MÚSICA:

A arte de capa de “A Dark Poem, Part II: Sanguis” chamou minha atenção: ao mesmo tempo onde expressa uma beleza singular pela belíssima concepção artística (à cargo de Niklas Sundin), transmite todo o desespero e lamentação que se ouve no disco. Um primor!

Merece destaque também o belíssimo vídeo de divulgação da faixa “Sanguis”. Veja e me diga o que achou!

 

VALE A PENA?

Sim, com ressalvas. Se você aprecia prog metal atmosférico, emocional e maduro. Este disco é um mergulho profundo na alma, daqueles discos que exigem atenção e deixam marca. Altamente indicado para ouvintes que curtem as fases recentes de bandas como OPETH, ANATHEMA, PARADISE LOST e KATATONIA. Um dos lançamentos mais bonitos e honestos de 2026. Como dito antes, se você não suporta essa fase progressiva das bandas citadas, este belo disco sobre medo, depressão e (des)esperança, não é para você.  

  

7.5/10

 

(Daniel Aghehost)

 

 

TRACK LIST

1. Sanguis

2. Loneliness Untold, Loneliness Unfold

3. Sweet to the Point of Bitter

4. I Am Time

5. Fire in Ice

6. Lunar Tale

 

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