NON EST DEUS - Blessings and Curses
(Noisebringer Records)
PRIMEIRAS IMPRESSÕES
Noise, o músico anônimo por trás de bandas como KANONENFIEBER e LEIþA, mantém a NON EST DEUS como seu projeto mais antigo e incisivo. Desde o início, a banda (ou melhor, o projeto “one-man band”) foca na crítica à religião organizada não como ataque genérico, mas como dissecação íntima da culpa, da graça e do controle que a fé exerce sobre quem vive dentro dela.
“Blessings and Curses”, lançado em 3 de abril de 2026 via Noisebringer Records, é o quinto full-length da entidade. Mais caótico e expansivo que o antecessor “Legacy” (2023), o álbum caminha entre dois mundos: de um lado, o black metal melódico grandioso, feito para ecoar em campos abertos; do outro, a claustrofobia de um quarto fechado, onde uma única mente constrói tudo: som, dor e questionamento.
O álbum abre com “Prayer I” que surge como uma confissão sussurrada. É breve, sombria, e prepara o terreno com a delicadeza de quem acende uma vela antes da tempestade.
“Show Mercy” abre o primeiro ato com melodias negras que seduzem e riffs que ferem, carregando urgência e escuridão, enquanto a voz de Noise retrata um peregrino ainda preso, alguém que implora por misericórdia em meio à escuridão moral, sem saber exatamente de que precisa ser salvo. A faixa termina com a blasfema declamação de Deuteronômio 30:19-20: “a escolha entre vida e morte, bênção e maldição”, transformando o apelo em algo profundamente incômodo. É um começo poderoso que já expõe a inquietação central do álbum.
“Forgive Me” sustenta esta tensão melódica, com camadas de guitarras que oscilam entre beleza fria e agressão, como pensamentos que não encontram repouso, enquanto os vocais de Noise carregam arrependimentos que navegam em conflitos internos. As letras carregam o peso da confissão e da dependência de um deus todo-poderoso, reforçando o tema de uma fé que exige submissão total, culminando na angustiante declamação de Mateus 6: 14-15, que condiciona o perdão divino ao perdão humano: uma armadilha moral que o próprio álbum questiona de forma brilhante. Isso é graça… ou negociação?
Um dos grandes destaques do álbum surge na sequência. “My Lord” aprofunda o conflito interno. Aqui a melodia ganha contornos mais épicos, onde os vocais se tornam se tornam quase um lamento ritualístico, criando o contraponto ideal ao baixo e bateria e tendo as guitarras como condutoras para uma voz que transmite frustração e exaustão espiritual. Há cansaço aqui. Um esgotamento espiritual que se traduz em pedidos de pureza, santificação, negação do corpo. É um dos momentos em que o black metal melódico de Noise soa mais grandioso, capaz de atrair não só os fãs do black metal mais visceral como aos amantes de sonoridades épicas. Com vocais que invocam desesperadamente “Allfather! Creator! Lightbringer!”, a faixa pede santificação, pureza e libertação de desejos carnais. O contraste entre a melodia elevada e a letra de submissão total reforça a ideia de uma fé que exige renúncia completa. Ao final, a evocação a 1º Tessalonicenses 4:7-8, reforça a santidade como obrigação. E o peso disso, paira. Uma faixa que, sem dúvidas, mostra toda a grandiosidade da NON EST DEUS.
“The Forsaken” é um dos pontos mais cruéis (e mais brilhantes) do álbum. Inspirada no Salmo 22, a faixa transmite o desespero de quem clama por um Deus que permanece em silêncio. Os riffs caem progressivamente, criando uma sensação de abandono total, e a citação bíblica no final (Mas eu estou sozinho, do berço até a sepultura. Eles clamaram a ti e não foram envergonhados. Mas eu sou um verme, desprezado e difamado) transforma o lamento em algo ainda mais sufocante. transformando o ouvinte em testemunha de um colapso de fé. Estes momentos épicos transformam a sonoridade da banda em algo de primor ímpar.
Após o interlúdio “Prayer II”, que funciona como o último lampejo de uma redentora luz inexistente. Mas não há redenção: apenas a lembrança distante de algo que talvez nunca tenha existido. Já “Transgression”, apresenta ao ouvinte apenas lamentos de fúria e condenação brilhantemente conduzidas por um dos instrumentais mais inspirados da banda. O sofrimento eterno, o desejo carnal e o castigo divino são conduzidos por andamentos arrastados, que culminam em momentos de crescendo ainda mais épico. Seu final, com a declamação lamuriosa de Isaías 66: 24 faz desta uma das faixas mais pesadas e claustrofóbicas do disco.
O ponto alto conceitual de “Blessings and Curses” surge em “Kora” que traz o momento em que a máscara cai. Esta faixa reconta a rebelião de Corá (descrita em Números 16) dando voz ao rebelde antes do castigo divino. Noise apresenta os argumentos de Corá com força (“Moses! You haven’t brought us to Thy holy land…”), antes de o solo e a intensidade culminarem na frase seca e devastadora: “God is good.” Dita sobre a morte de 250 homens, ela não consola. Ela fere, destilando sua brutal ironia.
Não há dúvidas aqui de que estamos diante de um dos grandes lançamentos do black metal atual. “The Sacrifice” surge para confirmar esta afirmação, usando a citação de Mateus 10 (“Não vim trazer paz, mas espada”) para expor a coerção por trás da salvação: a música denuncia a exigência de amor a Deus acima da família, como uma extorsão emocional. A música equilibra melodia atraente com uma agressividade contida que torna a mensagem ainda mais incômoda. Toda a execução aqui é brilhante, mesclando o épico com o visceral em harmonias únicas.
O arco narrativo do disco tem seu final com “The Indulgence”, sendo uma crítica afiada à venda de perdão pela Igreja medieval, estendendo o conceito à ideia de que a mortalidade e a culpa são fabricadas para depois serem vendidas de volta. É densa, opressiva e serve como um ponto final à jornada de libertação do protagonista que enxerga o poder da evolução longe do jugo cristão. Esta resignação toma forma na belíssima instrumental “Prayer III”, que soa como a constatação da negra resolução ao ouvinte.
“Blessings and Curses” é o trabalho mais volátil e ambicioso da NON EST DEUS até aqui. Noise consegue criar um black metal melódico e expansivo, que pode agradar até quem não é fã do estilo, mas mantém a pressão claustrofóbica e a intimidade de um projeto conduzido por uma só mente. Em vez de atacar a religião de fora, o álbum deixa que a própria fé fale, e se condene, através de suas escrituras e das consequências que gera na vida real. O resultado é um disco tenso, inteligente e emocionalmente pesado, que funciona tanto como experiência sonora grandiosa quanto como reflexão pessoal sobre culpa, poder e libertação.
EM POUCAS PALAVRAS:
DESTAQUES:
Mesmo “Blessings and Curses” sendo um disco que prima pela coesão, não dá para negar que “Show Mercy”, “The Forsaken” e “My Lord” são momentos que impressionam em suas primeiras audições.
PONTOS DE ATENÇÃO:
“Blessings and Curses” não é apenas um disco de black metal. É um disco que possui uma mensagem poderosa que será muito mais bem saboreada com tempo e imersão do ouvinte em estética visual e, principalmente, em suas letras. Portanto, para o ouvinte que passar por este disco de forma apressada nos streamings, sem se importar com a obra como um todo, talvez o escute... mas, com certeza, não o compreenderá em sua totalidade.
EXTRA-MÚSICA:
A arte de Tuomas Koivurinne é um convite ao silêncio. Bela e perturbadora, traduz em imagem a solidão de quem busca uma luz que nunca chega. Um trabalho que merece ser contemplado enquanto o som se constrói pela narrativa. Um primor que merece ser degustada enquanto Noise destila todo o seu ódio em requinte pouco visto.
A banda divulgou também um belíssimo lyric vídeo para a faixa “Forgive Me” que merece sua atenção.
VALE A PENA?
“Blessings and Curses” é um brilhante exemplo de como o black metal consegue ainda ser mortal para os bons costumes e os cidadãos de bem. Usando as próprias palavras do cristianismo para destruí-lo por dentro, a NON EST DEUS apresenta um disco que é muito mais do que apenas música: é um manifesto de salvação a todos que querem se libertar dos dogmas que aprisionam. Ouça com atenção, pois a maldição mais forte vem disfarçada de bênção.
Sem dúvidas, um dos lançamentos mais interessantes de 2026.
9.7/10
(Daniel Aghehost)
TRACK LIST
1. Prayer I
2. Show Mercy
3. Forgive Me
4. My Lord
5. The Forsaken
6. Prayer II
7. Transgression
8. Kora
9. The Sacrifice
10. The Indulgence
11. Prayer III