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PRIMEIRAS IMPRESSÕES: IMMOLATION - Descent (2026 - Shinigami Records)
Por Daniel Aghehost
Publicado em 19/04/2026 21:28
Resenhas

IMMOLATION - Descent

(Nuclear Blast // Shinigami Records - clique aqui pra adquirir)

 

PRIMEIRAS IMPRESSÕES

Para mim, a IMMOLATION nunca foi apenas mais uma banda de death metal. É uma instituição. Talvez uma das primeiras que vem à minha mente quando o assunto é metal da morte. Desde “Dawn of Possession “ (1991), acompanho com proximidade cada novo lançamento da banda. Formada em Yonkers, Nova York, em 1986, o quarteto sobreviveu a quase quatro décadas de mudanças no gênero e continua entregando discos que soam tão modernos quanto opressivos. Ross Dolan (vocal e baixo) e Robert Vigna (guitarra) são os pilares que nunca falharam, e o lineup atual, completado por Alex Bouks (guitarra) e Steve Shalaty (bateria), é um dos mais afiados da história da banda.

*Descent*, o 12º álbum de estúdio, chegou ao mercado no último dia 10 de abril  via Nuclear Blast e não apresenta sonoridades diferentes, nem experimentações. Em vez disso, aprofunda e refina a fórmula que tornou a IMMOLATION lendária: dissonância sufocante, riffs tortuosos, atmosfera infernal e letras que dissecam a hipocrisia religiosa e a podridão humana. Com pouco mais de 42 minutos, o disco é direto, brutal e, ao mesmo tempo, incrivelmente denso, um dos trabalhos mais consistentes e opressivos da carreira recente da banda.

O início com “These Vengeful Winds” é uma porrada que não dá tempo de respirar. Após uma introdução breve e sombria, explode em riffs serpenteantes que parecem se contorcer em direções opostas, carregando uma melancolia cortante. As letras pintam um cenário de tronos caindo e anjos em lamentação, enquanto a bateria de Shalaty martela com precisão cirúrgica. É o cartão de visitas perfeito: A IMMOLATION sabe, como ninguém, dominar o caos.

“The Ephemeral Curse” mantém a velocidade alta e a violência como armas principais. Aqui, o tema é a brevidade da existência humana e a ilusão de importância. A banda trabalha com mudanças de tempo e estruturas complexas sem jamais soar exibicionista. A técnica está ali, evidente, mas subordinada à sensação de inevitabilidade que percorre a faixa. Os riffs giram como um vórtice, com leads afiados de Vigna e Bouks que cortam o ar. É técnica a serviço da atmosfera, nada de exibicionismo gratuito.

Um dos pontos mais pesados do disco surge em “God’s Last Breath”. Um groove lento, ritualístico e esmagador domina, com Dolan entregando vociferações graves e ameaçadores. A letra evoca o fim de tudo e o riff final parece mesmo o último suspiro de uma divindade moribunda. Por mais que os anos passem, ainda consigo me impressionar com o peso e a técnica que a banda impõe em seus lançamentos. Um dos momentos mais doom e opressivos de toda a carreira recente da banda.

“Adversary” retoma a agressividade direta, quase bélica. É uma música que pulsa com urgência, alternando entre explosões de velocidade e momentos de tensão comprimida. Liricamente, há aqui uma inversão interessante: não se trata de glorificar o “adversário”, mas de expor o conflito entre fé, poder e manipulação. A IMMOLATION nunca foi uma banda de provocações superficiais e isso fica evidente mais uma vez. Os duelos entre riffs inspiradíssimos e os vocais assombrosos de Dolan fazem desta faixa outro grande momento do álbum. 

“Attrition” introduz um andamento mais cadenciado, quase marcial. A repetição rítmica reforça a ideia de desgaste contínuo, de um conflito sem propósito. É uma faixa que cresce aos poucos, sustentada por uma base sólida de baixo e bateria, enquanto as guitarras transitam ao redor como ruínas em movimento. Esta é uma daquelas faixas que comprovam que a IMMOLATION sabe como fazer música extrema, alternando perfeitamente entre velocidade e brutalidade.

**“Bend Towards the Dark”** (3:56) é um dos destaques líricos. Fala de hipocrisia religiosa e da escolha consciente pelo mal (“Holier-than-thou, we rise to the fall / Purging sanctity, we bend towards the dark”). Os riffs são sinuosos e o solo de Vigna adiciona uma camada de desespero.

Crítica à hipocrisia religiosa e manipulação coletiva são os temas principais de “Bend Towards the Dark”. Há uma sensação constante de decadência moral — não como algo externo, mas como algo intrínseco à própria natureza humana. Musicalmente, a banda alterna entre ataques rápidos e passagens mais abertas, criando um jogo de tensão e liberação que mantém o ouvinte em estado de alerta. Impressionante o que a bateria de Shalaty faz neste tema. Ouça com muita atenção!

“Host” merece destaque especial, trazendo um dos riffs mais cativantes do álbum, com um toque quase sublime no meio do caos. A letra usa a metáfora de uma infecção viral para falar de como a humanidade se corrompe. É uma das faixas mais “acessíveis” do disco, mas ainda mantém a densidade característica. Gostei principalmente das viradas de movimento que surgem no meio da música,  quando a banda mostra que é possível sim aliar cadência à brutalidade.

 “False Ascent” apresenta aos ouvintes a ideia de ascensão ilusória, poder construído sobre submissão. Musicalmente, há uma alternância interessante entre momentos mais diretos e passagens mais tensas, criando uma sensação de instabilidade constante. A música nunca “se resolve”, o que reforça a ideia de que essa ascensão é, na verdade, uma queda disfarçada.

Teclados soturnos, guitarras atmosféricas e a ausência de vocais fazem de “Banished”  um espaço de suspensão, quase um limbo. A atmosfera quase contemplativa não esconde o clima de inquietação que sentimos durante a audição de “Descent”. Funciona como se a banda quisesse que respirássemos antes do impacto final.

E que impacto!

“Descent”, a faixa-título, é o ápice conceitual do álbum. Aqui, tudo converge: musicalmente, a banda alterna entre momentos de esmagamento e passagens mais expansivas, criando a sensação de um movimento contínuo rumo ao colapso. A música se estende, cresce, se arrasta e explode em ciclos, como uma queda contínua sem fundo visível. Liricamente, não há mais metáfora: há constatação. O homem não está sendo levado à queda; ele está se jogando. O final da faixa não resolve nada — apenas reforça a ideia de que essa descida não tem fundo.

*Descent* não é um álbum de reafirmação. É um álbum de aperfeiçoamento. A IMMOLATION chega aos 38 anos de carreira soando tão afiada e demoníaca quanto nos anos 90, mas com uma maturidade que só o tempo pode dar. O disco é denso, dissonante, técnico e, acima de tudo, opressivo, exatamente o que se espera de uma das bandas mais importantes do death metal americano. Ross Dolan e Robert Vigna continuam sendo mestres absolutos da atmosfera infernal, e o novo lineup potencializa ainda mais esta qualidade.

Se “Acts of God” (2022) soava por vezes expansivo demais, aqui há uma sensação de foco maior. As músicas são mais diretas, mas não menos complexas. Há um equilíbrio mais claro entre técnica, atmosfera e composição.

É mais um capítulo brilhante numa discografia quase impecável.

 

 

EM POUCAS PALAVRAS:

 

DESTAQUES:

A abertura devastadora com “These Vengeful Winds”,  a fúria de “Adversary” e o mergulho profundo em “Descent” são os destaques de um disco repleto de destaques.

 

PONTOS DE ATENÇÃO:

Quem busca grandes novidades sonoras, pode achar o disco “mais do mesmo”. Para quem ama a fórmula criada (e deverias copiada) da IMMOLATION, é exatamente o se espera de um novo lançamento.

 

EXTRA-MÚSICA:

Ainda estamos em abril e a IMMOLATION lança, sem dúvidas, uma das melhores capas do ano (quiçá dos últimos dez anos). O trabalho realizado por Eliran Kantor (que além de ter feito artes para HELLOWEEN, SIGH e MY DYING BRIDE, dentro outros, foi o responsável pelas releituras brilhantes da CAVALERA para as regravações dos primeiros discos da SEPULTURA) consegue expressar de forma brilhante a agonia e o êxtase deste trabalho. Uma verdadeira obra de arte.

Destaques também para a participação de Dan Lilker (ANTHRAX, BRUTAL TRUTH) nos vocais de “Host” e “Descent”, deixando estas faixas ainda mais extremas.

 

VALE A PENA?

E algum álbum da IMMOLATION não vale? “Descent” é IMMOLATION no seu estado mais puro e implacável. Se você gosta de death metal dissonante, técnico e atmosférico que te faz sentir o peso do inferno, este álbum é obrigatório.

Um dos melhores discos do gênero em 2026 

  

9.7/10

 

(Daniel Aghehost)

 

 

TRACK LIST

1. These Vengeful Winds

2. The Ephemeral Curse

3. God's Last Breath

4. Adversary

5. Attrition

6. Bend Towards the Dark

7. Host

8. False Ascent

9. Banished

10. Descent

 

 

 

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