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PRIMEIRAS IMPRESSÕES: METAL CHURCH - Dead to Rights (2025 - Rat Pak Records)
Por Daniel Aghehost
Publicado em 19/04/2026 21:08 • Atualizado 19/04/2026 21:11
Resenhas

METAL CHURCH - Dead to Rights

(Rat Pak Records)

 

PRIMEIRAS IMPRESSÕES

Há bandas que envelhecem. Há bandas que resistem. E há aquelas que, mesmo atravessando perdas, mudanças de formação e ciclos de quase extinção, encontram uma forma de continuar falando com propriedade. A METAL CHURCH sempre pertenceu a esse último grupo. Responsável por alguns dos grandes clássicos do Heavy Metal, como “Metal Church” (1984) e “The Dark” (1986), a banda nunca teve um lugar cativo em meu coração, mesmo respeitando todo o seu legado composto por altas doses de thrash, melodias poderosas, letras inteligentes e uma identidade que mistura agressividade com alma. Kurdt Vanderhoof, o único membro original, é o cérebro e o coração do grupo há mais de quatro décadas.

Depois da morte trágica de Mike Howe em 2021 e da instabilidade que marcou “Congregation of Annihilation” (2023), muitos pensaram que o fim havia chegado. Mas Vanderhoof, como sempre, reagiu. Para “Dead To Rights”, o 14º álbum de estúdio (lançado em 10 de abril via Rat Pak Records), ele montou um line-up de veteranos de alto calibre: Brian Allen (ex-VICIOUS RUMOURS) nos vocais, David Ellefson (ex-MEGADETH) no baixo, Ken Mary (FLOTSAM AND JETSAM) na bateria e Rick Van Zandt na segunda guitarra. O resultado é um disco que soa ao mesmo tempo clássico e revitalizado: pesado, melódico e cheio de atitude.

O que este novo álbum propõe não é um retorno ao passado, nem uma tentativa de modernização forçada. O que ele oferece é algo mais delicado: um equilíbrio entre legado e continuidade, entre aquilo que fez da METAL CHURCH uma instituição e aquilo que ainda pode fazê-los soar relevantes em 2026.

A abertura com “Brainwash Game” já deixa clara a intenção do disco: um ataque direto, estruturado em riffs sólidos e uma cadência firme, sem rodeios. Há uma agressividade controlada aqui, que remete ao peso mais recente da banda, mas com uma organização mais clara entre os instrumentos. Brian Allen entra com uma presença vocal rouca e segura, entregando uma crítica afiada à manipulação midiática e à perda de discernimento A produção, mais equilibrada, permite que cada elemento respire, algo que imediatamente diferencia este trabalho de seu antecessor.

“F.A.F.O.” (Fuck Around and Find Out) surge como um dos momentos mais incisivos do álbum. Curta, objetiva, construída sobre um riff que se fixa com facilidade, a faixa funciona como um ponto de convergência entre o heavy tradicional e uma abordagem mais próxima do thrash, graças à bateria explosiva de Ken Mary e ao refrão que gruda na cabeça. Allen alterna entre gritos roucos e melodias mais altas, provando que consegue carregar a herança de Wayne e Howe sem imitar ninguém. É o tipo de música que faz o pescoço doer desde a primeira audição. O mérito aqui está na forma como a banda consegue ser direta sem soar simplista: há um senso de urgência que sustenta a música do início ao fim. 

A faixa-título, “Dead to Rights”, traz uma mudança de andamento que revela uma das maiores qualidades do disco: a capacidade de trabalhar o peso sem depender exclusivamente da velocidade. O riff principal carrega um caráter mais arrastado, quase deliberado, permitindo que o baixo de David Ellefson ganhe espaço e contribua para a construção de um ambiente mais denso, enquanto os solos de Vanderhoof e Van Zandt cortam com precisão cirúrgica. A letra fala de justiça e consequências, algo que a própria banda viveu nos últimos anos.. É uma música que cresce aos poucos, apostando na repetição como ferramenta de impacto. E isso faz toda a diferença!

Em “Deep Cover Shakedown”, a banda opta por um caminho mais cadenciado, explorando uma pulsação mais marcada que aproxima a música de um terreno mais acessível, sem perder identidade. Sua introdução marcante, com esse riff absurdo e um trabalho de baixo e bateria fascinantes, comprovam que estamos diante de um disco poderoso. Há aqui uma preocupação maior com estrutura e fluidez, o que a torna uma das faixas mais fáceis de absorver dentro do conjunto. De verdade: se você optar por ouvir este disco nos streamings, comece por esta faixa.

“Feet to the Fire” retoma uma abordagem mais tradicional do heavy metal americano. Aqui, a METAL CHURCH dialoga abertamente com sua própria história, utilizando estruturas familiares: riffs diretos, refrão marcante, progressão previsível. Quando a banda aposta mais na pegada heavy metal, as coisas ficam menos brilhantes para mim, não que isso diminua o brilho e a intensidade da obra.

“The Show” é um dos momentos mais interessantes em termos de construção. A alternância entre trechos mais rápidos e passagens mais contidas cria uma dinâmica que mantém o ouvinte atento. O destaque vai para o trabalho de baixo, que em determinados momentos assume protagonismo e adiciona textura à composição (a adição de David Ellefson ao grupo mostrou-se acertadíssima). Os guitarristas trocam licks com gosto, lembrando o melhor da fase “Blessing in Disguise” (1989). Um dos momentos mais divertidos do disco.

“Heaven Knows (Slip Away)” oferece um respiro relativo dentro do álbum. A construção mais melódica e o andamento menos agressivo permitem que a banda explore nuances que nem sempre aparecem com tanta clareza. É uma faixa que ganha força com o tempo, revelando detalhes em audições mais atentas. Seu andamento remete aos primeiros trabalhos da banda, o que é um acerto para o ouvinte que chegou até aqui.

“No Memory” apresenta uma tentativa de ampliar o espectro emocional do disco. A alternância vocal de David Wayne, transitando entre registros mais agressivos e momentos mais melódicos, busca criar contraste, mas nem sempre encontra o equilíbrio ideal. Ainda assim, a intenção de sair do padrão mais direto do álbum é perceptível e válida.

Na reta final, “Wasted Time” e “My Wrath” cumprem papéis distintos. A primeira aposta em uma abordagem mais direta, quase funcional, enquanto a segunda retoma elementos mais agressivos, flertando com o thrash e encerrando o disco com uma sensação de intensidade recuperada, ainda que tardia.

A versão de Dead to Rights que tive em mãos não incluía “Blood and Water” — uma ausência que, ao fim da audição, soa quase como uma falha imperdoável. Trata-se, sem exagero, de um dos pontos mais altos do álbum. Soturna e paciente, a faixa se constrói em camadas, crescendo com naturalidade até atingir um clímax denso e envolvente. É ali que o Metal Church expõe, com clareza, o nível de técnica e inspiração que ainda pulsa em sua formação atual. Não seria nenhum absurdo dizer que sua presença no lugar de algumas das faixas finais elevaria significativamente o impacto do disco como um todo.

“Dead to Rights” é um disco que se sustenta mais pela consistência do que pela ousadia. O disco começa de forma brilhante e feroz, trazendo o ouvinte para o que de melhor o heavy e o thrash metal produziram nas últimas décadas. Porém, sua longa duração não se sustenta, fazendo com que a audição vá perdendo o gás que a banda tanto busca. O que fica é um esforço claro de organizar melhor os elementos que sempre fizeram parte de sua identidade.

O resultado é um álbum sólido, com bons momentos, algumas irregularidades e uma sensação geral de garra e vontade (que muitas bandas veteranas não tem conseguido em seus lançamentos mais recentes). Em certos trechos, falta aquele elemento que transforma boas ideias em momentos realmente memoráveis. Ainda assim, considerando o contexto de sua criação, trata-se de um trabalho que reafirma a capacidade da banda de seguir relevante, mesmo após tantas rupturas.

 

 

EM POUCAS PALAVRAS:

 

DESTAQUES:

A sequência inicial deste disco, com “Brainwash Game”, “F.A.F.O.”, “Dead to Rights” e “Deep Cover Shakedown” é matadora! Vale e muito ouvir no último volume!

 

PONTOS DE ATENÇÃO:

Apesar de ser um grande trabalho, é uma pena que o disco vá perdendo fôlego após sua metade. Isso pode afastar os novos ouvintes ou causar uma amarga sensação nos veteranos fãs da banda.

 

EXTRA-MÚSICA:

A arte, assinada por Jean Michel e Joe O’Brien, cumpre bem o seu papel: é elegante e competente, mas não chega a provocar aquele impacto imediato que salta aos olhos. Já a produção merece um elogio mais enfático: equilibrada e precisa, ela valoriza cada instrumento com clareza, revelando com nitidez a alta técnica dos músicos. Vale também reservar alguns minutos para os vídeos de “Brainwash Game” e “F.A.F.O.”, dois trabalhos visualmente muito bem realizados, que funcionam como portas de entrada ideais para o universo deste álbum.

 

VALE A PENA?

“Dead to Rights” é, antes de tudo, um disco que se sustenta pela execução segura e pela energia que ainda pulsa nas veias da banda. Mesmo com alguns tropeços ao longo do caminho, há aqui material suficiente para envolver, especialmente quem transita entre o heavy tradicional e o peso mais incisivo do thrash. O álbum alterna momentos realmente inspirados com faixas que passam sem deixar marca mais profunda, mas, no balanço geral, revela uma banda que ainda tem fôlego criativo para competir com muitos de seus contemporâneos. Pode não ser um trabalho irrepreensível, mas é, sem dúvida, um registro capaz de empolgar e reafirmar que a METAL CHURCH ainda tem algo a dizer.

Se sair em versão nacional, adquira e ouça no talo. 

  

8.0/10

 

(Daniel Aghehost)

 

 

TRACK LIST

1. Brainwash Game

2. F.A.F.O.

3. Dead to Rights

4. Deep Cover Shakedown

5. Feet to Fire

6. The Show

7. Heaven Knows (Slip Away)

8. No Memory

9. Wasted Time

10. My Wrath

 

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