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PRIMEIRAS IMPRESSÕES: PRIMAL CULT - Dark Passage (2026)
Por Daniel Aghehost
Publicado em 10/06/2026 10:48 • Atualizado 10/06/2026 10:49
Resenhas

PRIMAL CULTDark Passage

Grécia | Melodic Black Metal

Northern Silence Productions | 

2026

 

FORMAÇÃO:

Eve Alchemy - Vocals, Guitars

Setesh - Bass

Aggelos Samaras - Drums

Baal - Cello 

 

PRIMEIRAS IMPRESSÕES 

Existe um tipo de disco que tenta conquistar o ouvinte pela violência imediata. Aquele impacto calculado, o refrão que chega cedo, o excesso de camadas para parecer grandioso. “Dark Passage” (lançado oficialmente no dia 5 de junho pela Northern Silence Productions) segue outro caminho. O segundo álbum da grega PRIMAL CULT entra em silêncio, abre espaço e convida para uma travessia.

E talvez essa seja sua maior qualidade.

Depois de um hiato considerável desde “Perennial Fire”, o projeto liderado por Eve Alchemy retorna com um trabalho que parece ter entendido exatamente onde quer existir dentro do black metal grego contemporâneo. Existe reverência à tradição helênica, claro. Está nos riffs melódicos (que transbordam heavy metal tradicional), naquela sensação quase ritualística de progressão e no cuidado em construir atmosfera antes de liberar peso. Mas existe também algo mais íntimo acontecendo aqui.

Desde os primeiros minutos de “Argo Navis”, fica claro que “Dark Passage” não foi pensado como uma coleção de músicas soltas. As guitarras assumem o papel de guia enquanto teclados discretos e intervenções inspiradíssimas de cello, instrumento que acrescenta profundidade e personalidade à identidade da banda, ampliam o horizonte sonoro sem jamais disputar protagonismo. Sobre riffs hipnóticos e imponentes, a banda constrói uma atmosfera que parece expandir ainda mais aquela aura tão particular do black metal helênico. E quando os coros finalmente emergem na reta final, tudo alcança seu ápice: os vocais de Eve Alchemy deixam de soar apenas como condução e passam a ecoar como um verdadeiro anúncio do fim dos tempos. Não é uma abertura que busca impacto imediato. É uma abertura que prepara o ritual.

E isso muda completamente a experiência.

“Philoctetes” surge naturalmente como um dos pontos mais altos do disco. Não porque seja a faixa mais explosiva ou a mais imediata, mas porque é justamente aqui que a PRIMAL CULT alcança um equilíbrio impressionante entre melodia, tensão e grandiosidade. O início semiacústico cria uma falsa sensação de contemplação antes de abrir espaço para riffs inspiradíssimos e uma fúria ardente que passa a contaminar cada minuto da composição. Existe dor nessa música. Existe um sentimento constante de carregar algo pesado demais. Mas, curiosamente, existe também triunfo. E é nesse contraste que ela cresce. Quando os teclados finalmente aparecem em tom quase cerimonial e triunfal, a faixa atinge um daqueles momentos que arrepiam sem precisar recorrer ao excesso. Tudo soa enorme, solene e profundamente helênico. Uma música que não apenas reverencia o legado do black metal grego, mas lembra por que ele continua sendo uma das escolas mais atmosféricas e emocionalmente marcantes do gênero.

Guitarras inspiradas, uma bateria quase marcial e teclados carregados de atmosfera conduzem os primeiros segundos de “Onar and the Latent Sun”, aprofundando ainda mais o lado contemplativo de “Dark Passage”. Depois do impacto e da grandiosidade construídos nas faixas anteriores, seguimos naturalmente esperando mais um capítulo dessa escalada emocional. E então a PRIMAL CULT surpreende. Quando menos se espera, os vocais limpos de Eve Alchemy surgem de forma absolutamente inspirada, evocando aquela imponência quase ritualística que sempre tornou o metal helênico tão singular. É daqueles momentos que fazem o ouvinte parar por alguns segundos e simplesmente absorver o que está acontecendo.

O mais interessante é que esses vocais não aparecem para suavizar ou interromper o clima. Pelo contrário. Eles ampliam o caráter espectral da música e acrescentam uma camada emocional que transforma completamente sua atmosfera. Aqui, o disco deixa claro que está menos interessado em demonstrar extremidade e mais preocupado em construir algo que permaneça na memória muito depois do último acorde. Para quem ainda não conhece a banda, dificilmente existiria porta de entrada melhor: uma faixa inspiradíssima, executada com enorme sensibilidade e que sintetiza com rara precisão essa combinação de melodia, grandeza e transcendência que faz o melhor black metal grego soar tão único.

A faixa-título surge como o verdadeiro coração pulsante do álbum. É aqui que toda a construção das músicas anteriores parece finalmente encontrar seu destino. Os riffs ganham ainda mais presença, o peso cresce e o álbum atravessa de vez aquele portal que vinha desenhando desde os primeiros minutos. Existe um senso de culminância impressionante.

O que a PRIMAL CULT entrega aqui é especial. A fusão entre guitarras e cello cria um contraste belíssimo entre agressividade e solenidade, mostrando como o metal extremo ainda consegue encontrar novos caminhos sem abandonar sua essência. Cada camada parece surgir no momento exato, elevando constantemente a sensação de grandeza que o disco vinha construindo até aqui. E confesso: nesse ponto da audição eu já estava completamente conquistado.

O andamento é intenso, envolvente e carregado daquela imponência que faz certos discos parecerem maiores a cada nova audição. Também merece enorme destaque o trabalho monstruoso de Aggelos Samaras nas baquetas, conduzindo a faixa com força, dinâmica e precisão, enquanto o baixo de Setesh sustenta tudo com uma presença que muitas vezes passa despercebida numa primeira escuta, mas se revela essencial conforme o álbum avança. Sobre Eve Alchemy, sobra pouco a acrescentar: sua criação de riffs aqui é inspiradíssima e seus vocais alcançam níveis cada vez mais abissais e ameaçadores. A alternância entre momentos ásperos e passagens quase transcendentes amplia ainda mais o impacto da composição.

E talvez o mais impressionante seja que, mesmo atingindo esse nível de intensidade, a banda nunca sacrifica melodia em nome da brutalidade. Pelo contrário. É justamente esse equilíbrio que transforma “Dark Passage” em um dos grandes momentos do álbum. Um primor.

Na segunda metade, Dark Passage alcança alguns de seus momentos mais atmosféricos e, talvez por isso mesmo, mais recompensadores para quem se entrega completamente à experiência. “Below the Wave” surge como um desses capítulos especiais. Logo nos primeiros segundos, o uso do cello chama atenção e assume um protagonismo inesperado, travando um belíssimo diálogo com as guitarras de Eve Alchemy. Existe quase uma sensação de confronto entre delicadeza e brutalidade, entre contemplação e peso.

Mas o que impressiona é como nada aqui parece artificial ou inserido apenas para causar efeito. Aos poucos, as guitarras tomam a dianteira e conduzem a composição para terrenos mais arrastados, densos e sufocantes, construindo uma tensão que cresce de forma quase imperceptível. E quando o cello retorna na reta final, envolto pelos vocais urrados de Eve Alchemy em um clima de absoluta desesperança, tudo ganha uma força emocional enorme. É nesse tipo de detalhe que a banda mostra maturidade e prova saber construir grandes momentos sem precisar recorrer ao excesso. “Below the Wave” acaba se revelando como uma das faixas mais interessantes e emocionalmente marcantes de todo o álbum.

Já “Towards the Vesper Tides”, com seus quase nove minutos de duração, é o tipo de faixa que lembra por que ainda vale a pena ouvir discos inteiros e não apenas colecionar músicas soltas. Ela respira, evolui e constrói imagens com uma naturalidade impressionante. O início veloz cria uma falsa sensação de domínio absoluto da agressividade, mas logo a composição revela algo maior. A ferocidade começa a ser atravessada pelas intervenções magníficas do cello de Baal, cujo trabalho em “Dark Passage” merece elogios constantes. E curiosamente, sua presença não suaviza a música. Faz exatamente o contrário: amplia a tensão e torna cada explosão ainda mais intensa.

Eve Alchemy entrega aqui uma performance vocal simplesmente devastadora. Seus vocais carregam toda a fúria, o desespero e a imponência que o black metal exige, mas sem perder intenção ou presença. Enquanto riffs poderosos empurram a composição para frente, chega um momento em que tudo muda de forma quase imperceptível. O ambiente se abre, o cello retorna e os vocais entoados surgem como um verdadeiro cântico após uma batalha exaustiva, trazendo uma sensação quase triunfal em meio ao caos.

Nos minutos finais, a PRIMAL CULT alcança um estado próximo do transe. Os riffs parecem girar sobre si mesmos, hipnotizando e conduzindo o ouvinte até um clímax arrebatador. E embora eu normalmente não seja grande admirador de encerramentos em fade-out, aqui a escolha funciona de maneira surpreendente. Quando a música desaparece aos poucos, ela não soa inacabada. Pelo contrário. Deixa aquela rara sensação de que ainda não estamos prontos para sair desse universo.

E então vem “Shore of Echoes”.

Quando menos esperamos, a PRIMAL CULT encerra “Dark Passage” com uma primorosa peça instrumental que encontra no belíssimo piano de Melmoth seu grande protagonista. Mas seria injusto tratá-la como uma simples faixa de encerramento ou um epílogo contemplativo colocado ali apenas para desacelerar o disco. Existe vida própria aqui. Existe identidade. A composição respira sozinha e ocupa um lugar muito particular dentro da jornada construída ao longo do álbum.

Depois de tanta densidade, peso, melodia e mergulho interior, a banda parece tomar uma decisão brilhante: não encerrar com grandiosidade óbvia, mas despertar o ouvinte. Como se, após atravessar mares escuros, confrontar sombras e percorrer os ambientes mais profundos da própria consciência, fosse finalmente hora de retornar à superfície.

E justamente por isso o encerramento funciona tão bem. Não existe explosão final. Não existe catarse fácil. O disco termina deixando uma sensação de reverberação distante, como se depois de toda essa travessia não houvesse resposta definitiva esperando do outro lado. Apenas ecos. Ecos de tudo aquilo que o álbum fez o ouvinte sentir.

O que mais me chamou atenção em “Dark Passage” foi justamente isso: ele não tenta provar nada. Não quer mostrar técnica o tempo inteiro, não precisa correr e também não depende daquele verniz épico exagerado que às vezes invade trabalhos inspirados na escola grega. Existe confiança aqui.

No fim, o longo intervalo entre discos parece ter feito bem à PRIMAL CULT. O retorno não soa como continuação automática. Soa como maturidade. Para quem gosta de black metal melódico, obras que funcionam como percurso e discos que crescem conforme você volta a eles, “Dark Passage” merece atenção.

 

FAIXAS QUE MERECEM ATENÇÃO

“Philoctetes”, “Onar and the Latent Sun”, “Towards the Vesper Tides” e "Shores of Echoes"

 

10/10

 

(Daniel Aghehost)

 

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