Segunda-feira, 1 de agosto de 2016 às 21:15 em Resenhas
RESENHA: BELLVM DEORVM FEST em São Paulo/SP (23/07/2016)

 

 

BELLVM DEORVM FEST

BELLUM DEORUM FEST! Aos irmãos que estiveram presentes, bem como aqueles que não puderam comparecer por algum motivo específico, seguem algumas poucas linhas do muito que se teria a dizer daquilo que presenciei, vi e escutei, sem nunca, no entanto, com a pretensão de escrever "resenha", uma vez que há diversas pessoas mais competentes e especializadas do que eu para tal ofício. Entretanto, percebo que de alguns anos para cá, festivais como este, underground na raiz, tem tido pouquíssimas pessoas dos meios especializados em Dark Black Death Doom Metal que se habilitem a escrever sobre esses shows, portanto, não poderia passar em branco por uma questão de atitude.

Com o privilégio de ter acompanhado a organização desde a fase embrionária, logo após o bem-sucedido "At The Brazilian Swamps", há cerca de um ano, nomes poderosos de hordas que nunca antes se apresentaram no Brasil foram ventilados com possibilidades e probabilidades reais de virem este ano. Soube de 3 sugestões das quais reservo privadas uma vez que há ainda possibilidades de anúncio em futuras organizações da Storm Productions. Para este ano, no entanto, o mais aclamado foi, sem sombras de dúvidas, a Kawir. Horda cult do Hellenic Pagan Black Metal formada em 1993, com vasta discografia - bem difundida no extremo underground brasileiro, que tem - e teve - em sua história membros oriundos de Varathron, Zemial, Agatus, Nergal entre outras icônicas bandas gregas que despertam aos headbangers brasileiros o desejo de vê-los por aqui.

Uma vez confirmado a Kawir, partiu-se para a escolha de um cast que fosse à altura, que sobretudo caminhassem na seara soturna pagã entoada por eles e que representassem com dignidade e honra a cena nacional. Foi dentro desta perspectiva que Wodanaz, Iron Woods e Hecate foram convidados e posteriormente confirmados. Assim, reunido estas hordas pagãs, batizou-se o festival de "bellum deorum" - em latim traduz-se como "deuses da guerra".

Desde então, a logística deu o tom: aluguel do local e equipamentos, compra de passagens aéreas, confecção de ingressos e camisetas, divulgação nos meios especializados e demais pormenores desenrolaram-se até a data do evento. Na manhã de 23 de julho, conforme o cronograma, Kawir chegou em São Paulo vindo de Santiago / Chile, após terem se apresentado por lá na noite anterior.

Às 17 horas, quando cheguei, a rua do Hangar 110 já se encontrava cheia de headbangers, muitos vindo das mais longínquas e diferentes regiões do Brasil e diversos deles hospedando-se pela primeira vez em São Paulo. Contatos que até então estabeleceram-se apenas por meio de redes sociais, e-mails e até mesmo áureas cartas puderam encontrar-se cara a cara, apertaram-se as mãos, abraçaram-se e beberam juntos cervejas e destilados diversos. Havia ainda uma parcela do público na fila para comprar os ingressos e, quem já os havia adquirido antecipadamente permaneceram nos bares comendo e bebendo algo. Ao mesmo tempo, escutávamos a passagem de som do Kawir do lado de fora.

Dentro do Hangar, correria. O início do festival, previsto para às 19h30min, dificilmente aconteceria uma vez que Wodanaz e Iron Woods ainda tinham que acertar o som de palco e naquela altura já passávamos das 18 horas. Nos bastidores, os gregos descansavam um pouco no camarim enquanto a Hecate passava o som. O clima no camarim misturava distintas sensações entre ansiedade, tensão, alegria, honradez de todos ali por fazerem parte de tudo aquilo afinal, passaram-se 11 meses de árdua preparação, longas viagens, ensaios, definição de repertórios e mudanças de formação e tudo se resumiria num breve momento on stage do bellum deorum fest.

Às 19h15min as portas do Hangar 110 foram abertas ao público que entrava lentamente enquanto terminava-se os preparativos de palco, nesta altura a Wodanaz já havia passado o som e se preparava no camarim para a batalha. Seriam eles o aríete que romperia esse poderoso evento e assim o fez. Exatamente às 19h35min iniciou a introdução “Herança Pagã”, abertura do Full-Lenght 2014 “Brados Trovadores” e então, abriram-se as cortinas e Wodanaz estava no palco: o esperado “bellum deorum fest” havia começado com os acordes da inédita “Canto de Glórias, Pagãs Memórias” que ressoou no ambiente de forma imponente! Em seguida, com o público ainda entrando e acomodando-se na pista, tocaram “Mãos De Aço” e “Blessed By The Gods”. Até o momento, eu assistia a Wodanaz do mezanino, local privilegiado de frente ao palco, de lá ouvi o som nítido, vi muita gente fotografando e gravando vídeos do show enquanto outros headbangers agitavam. Wodanaz conquistavam o público paulatinamente! Quando iniciaram “Glória e Honra Pagã” me encontrava na saída do palco e de lá conferi o retorno do som e a performance dos músicos em outra perspectiva, conferindo sobretudo Murillo Stephan [a.k.a M. Bölthorn] – também da Lábar'Oculto. O baterista entrou na Wodanaz em meados de 2015 e estreou nesse show com muita segurança! De lá conferi os dois últimos hinos: “Válquirias, Abram Os Portões Do Valhalla” e “Winds Of War”. Terminaram o show com público aquecido e sedento por mais! Honraram-nos com hinos emblemáticos de sua história das Demos 2007 Winter War Hynms, 2008 Honra Triunfo Gloria Pagã, do álbum 2014 Brados Trovadores, a inédita “Canto de Glórias, Pagãs Memórias”, a nova formação com estreia de Pedrão Netto (a.k.a Bestial Wolf Berserker) acumulando guitarra / vocal.

Fechando as cortinas, corre preparações para a entrada de outra horda esperada da noite: Iron Woods. Havia muita expectativa para conferir duas novidades anunciadas pela banda nos meses que antecederam ao fest: a estreia da nova formação com a adição da terceira guitarra, algo inovador e peculiar e, ainda, a apresentação de 5 hinos inéditos que farão parte do próximo Full-Lenght a ser lançado este ano no Thorhammer fest, em setembro. Às 20h10min Iron Woods ensoou os primeiros acordes do primeiro som intitulado “The Voice Of Battle Cry”. Assim como no Wodanaz, fui conferir a qualidade da banda do mezanino para constatar sua performance absolutamente perfeita quanto na execução das notas e da qualidade do som. Havia certa preocupação quanto à possibilidade do Tom (técnico de som da casa) equalizar de forma clara as 3 guitarras, baixo, bateria e vocal. O que posso afirmar: tudo saiu alto e claro dos amplificadores e os arranjos com as 3 guitarras sobre as versões de estúdio com teclados foram executados com suma eficiência! Sucederam-se assim os majestosos hinos de guerra We Live To Fight , The Time Has Come To Fight, Empros Polemistes, The Bloodline For Heathen Pride; todas inéditas! Para finalizar a grandiosa performance da Iron Woods executaram as versões de “Valhalla Land” do álbum homônimo de 2013 e “Samhain Night” do álbum 2008 “The Journey To The Paganism”. Hinos de honra pagãs!

Enquanto Iron Woods finalizava seu show, Hecate preparava-se no camarim incorporando sua mística pagã com suas indumentárias! Conforme os shows iam acontecendo, a ansiedade dava lugar ao sentimento de “dever cumprido” e as latas de cerveja abriam-se uma após a outra! Mas para a Hecate ainda não! A última vez que eles tocaram em São Paulo tinha sido em 2005 e agora, 11 anos depois, aqui estavam eles para mais uma apresentação. O público também se movimentava tensamente a cada banda que passava pelos palcos pois aproximava-se o momento da apresentação do Kawir. Até então, o festival estava 10 minutos atrasado, tempo tolerável, dentro do previsto e programado!

Adentrou-se a Hecate no palco para o público aquecido e desejoso em assisti-los! Abriu-se as cortinas e dava-se início a cerimônia de evocação dos espíritos da noite e hostes pagãs com Hecateia intro: Mahamvantara. Poucas hordas nacionais conseguem impor uma atmosfera tão densa e obscura em completa harmonia com público. Como todas as bandas nacionais dessa memorável noite, a Hecate também apresentou, além da nova faixa intitulada Sekhmet, a formação com Josevan (a.k.a. Misanthropic Herege), sendo este seu segundo show! O novo baixista impressionou pelo desempenho e aderência à horda como se pertencesse a Hecate há anos! Som decorreu com qualidade perfeita, teclados operando o clima funesto dava base para as perfeitas passagens das cordas! Tudo coeso, bem executado, uma sinfonia obscura que circulou e atingiu a alma de todos!

Nos camarins, os gregos se aqueciam para sua grande hora; de um lado Stamatis (a.k.a. Malanaegis) sentado numa poltrona com sua guitarra, do outro Konstantinos (a.k.a. Echetleos) com seu contrabaixo, Panos (a.k.a. Therthonax) bastante entusiasmado abraçava todos, estava feliz por aquele momento, bebia, sorria e mostrava-se ansioso afinal, foram 26 horas de viagem até aquele momento e nada poderia dar errado! Os mais tranquilos que me pareceram foram Porphyrion (também da Nergal) e Jan (a.k.a. Hyperion) sentados tranquilamente conversando e preparando seus visuais de guerra! Saí pouco depois para deixá-los concentrados, e ainda vi o final da Hecate com público saudando-os pelo grande show que fizeram!

Às 22h20min os gregos se dirigiram ao palco. Nova força tarefa de todos da produção para substituir as bandeiras de palco e auxiliá-los nas regulagens dos instrumentos. Dez minutos depois, a cortina se abre; Porphyrion manteve-se na entrada do palco aguardando o primeiro acorde para entrada triunfal e, enfim, Kawir apresentava-se pela primeira vez no Brasil iniciando seu set com a poderosa Χαίρε τρίμορφη θεά [kaire Trímorfi Teá: Hail To The Three Shaped Goddess], seguidos por Διόνυσος [Dionysius] e Ηρακλής μαινόμενος [Heraclés Mainómenos: Hercules Enraged], três hinos do novo álbum Πάτερ 'Ηλιε Μήτερ Σελάνα [Páter Helios Méter Selana: Father Sun Mother Moon].

A qualidade de som permanecia excelente tanto para o público quanto no ambiente de palco, porém em um momento houve algum tipo de mau contato proveniente do cabo ou entre a pedaleira e o amplificador, não sei bem ao certo, que causou alguns problemas na guitarra de Malanaegis. Algum estresse rolou naquele instante, mas que foi rapidamente superado sem ter que parar a música “Hynms To Winds” que, se não me engano, rolava naquele instante. Na sequência entoaram mais 2 hinos do álbum de 2008, para mim o melhor deles, as poderosas Ophilolatreia e Poseidon. Em seu repertório, Kawir não deixou de brindar-nos com o hino Cosmic Verve, do Full-Lenght 1999 Epoptia [Erortia]. Nessa altura, passávamos da metade do show, quando então executaram um tributo em comemoração de 20 anos do clássico álbum de 1997 Προς Κάβειρους [Pros Kábeirous - To Cavirs] iniciando com a faixa título e culminando com os clássicos Άρτεμις [Artemis], Εκάτης και Ιανού [Hecate and Ianos] e Ερμής (Ο Ψυχοπομπός) [Hermes (The Psicopomp)]. Ao final, houve um fato inquietante: a Kawir não tocou um último som que estava programado em seu set list. Não que isso, creio, chegou a frustrar os músicos ou público, mas foi um som amais que seria entoado na apresentação deles e que não ocorreu.

Contudo, como síntese, “Bellum Deorum Fest” foi um ritual ancestral, uma celebração de irmãos de todo Brasil, algo que a Storm Productions está conseguindo proporcionar ano após ano graças a doses de coragem e ousadia em patrocinar a melhor estrutura possível! Local, equipamento, compras de ingressos, cronograma das apresentações, tudo feito na mais profana ordem e, no fim, sem atrasos e maiores improvisos! Vivenciamos assim com muito orgulho mais um festival nacional que marcou nossa história, composto por bandas undergrounds na essência, reafirmando-nos que festivais subterrâneos se faz com o que temos melhor para oferecer! Minhas mais profundas congratulações a todos envolvidos, incluindo o público de cerca de 500 pagantes que, graças a eles, se é possível vislumbrar novos festivais futuros que possam ser tão inesquecíveis e importantes.


(Texto:  PAVLLVS MOVRA, MMXVI.VII / Fotos:   Claudio Higa)

 

WODANAZ set list:

Introdução: Herança Pagã

Canto De Glórias, Pagãs Memórias

Mãos De Aço

Blessed By The Gods

Glória & Honra Pagã

Válquirias, Abram Os Portões Do Valhalla

Winds Of War

 

IRON WOODS set list:

The Voice Of Battle Cry

We Live To Fight

The Time Has Come To Fight

Empros Polemistes

The Bloodline For Heathen Pride

Valhalla Land

Samhain Night

 

HECATE set list:

Hecateia intro: Mahamvantara

Entrar No Prazer Eterno

Dominios da Imperfeição

Sekhmet

Ira De Sata

Hino A Lua

Descida Ao Averno

 

KAWIR set list

Χαίρε τρίμορφη θεά [Hail To The Three Shaped Goddess]

Διόνυσος [Dionysus]

Ηρακλής μαινόμενος [Hercules Enraged]

Hymn To Winds

Ophiolatreia

Poseidon

Cosmic Verve

Προς Κάβειρους [To Cavirs]

Άρτεμις [Artemis]

Εκάτης και Ιανού [Hecate's & Ianos]

 

Ερμής (Ο Ψυχοπομπός) [Hermes (The Psycopomp)]

 

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